Embarque do Amor

 

 

Conto Juvenil
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O mundo era um lugar louco.
Tudo podia mudar num minuto.
Um piscar de olhos e nada mais fazia sentido.
Cinco minutos. Esse foi o tempo que impediu Lucas de alcançar Mariana e declarar-se. Esse também foi o tempo que faltava para encerrar o embarque quando Mariana correu para não perder o voo.
Ela pensava que ele havia se arrependido do beijo e por isso não tocara no assunto. Ele estava bêbado demais quando aquele beijo aconteceu e sempre tivera um problema em lembrar-se do que falava ou fazia quando bebia demais.
Lucas e Mariana eram amigos acima de tudo. Era uma amizade de fazer inveja, eles compartilhavam uma conexão ímpar e tinha sido assim desde que tinham doze anos. Aos quinze, ambos perceberam que sentiam mais do que amizade, no entanto o medo os impediu de irem adiante.
Nove anos depois e eles continuavam amigos. A paixão que sentiam um pelo outro queimava em silêncio, pouco a pouco as chamas tomavam proporções dantescas e ameaçavam afastá-los. Era difícil conviver com o ciúme diário e suportar os papos sobre garotos e garotas que entravam e saiam de duas vidas.
Nenhum dos dois queria admitir o quanto estava sofrendo. Não aguentando manter-se naquela situação, Maria decidiu que era hora de percorrer o seu sonho de viajar o mundo. Ela contou ao Lucas que iria embora, desejando que ele pedisse que ficasse. Lucas ficou arrasado, não podia acreditar que a deixaria escapar por entre seus dedos.
O orgulho era o carcereiro daquela paixão. Mariana não imploraria pelo amor do Lucas. Ela estava cansada de ser a amiga que assistia as suas conquistas e que morria de ciúmes de cada uma das garotas que ele levava para a cama. Lucas queria pedir que ela não fosse, mas amava a amiga e convenceu-se que o certo era ficar feliz por ela.
Na festa de despedida organizada por Lucas, ambos estavam tristes e se refugiaram na bebida. Todos haviam ido embora. Eles estavam sozinhos, deitados no tapete do quarto. O álcool agia, refreando as inibições.
Ele afagou o rosto dela. Os seus dedos deslizaram sobre os lábios da amiga. Ela sorriu quando seus olhos se encontraram. Mariana era a garota mais linda do mundo aos olhos do Lucas. Seus cabelos crespos e volumosos reforçavam os traços do rosto da garota. A pele preta reluzia como seda pura, o que sempre deixava Lucas louco para tocá-la. Ela tinha dentes alvíssimos e perfeitamente alinhados, seu sorriso revirava o estômago do amigo e o fazia sempre desejar vê-la sorrir.
Quanto ao Lucas, era o príncipe dos sonhos de Mariana. Ela sonhava com ele numa frequência assustadora. Adorava seus lindos olhos verdes, assim como as covinhas que afundavam nas maçãs do seu rosto.
Como ímãs o casal de amigos foi aproximando-se e os poucos centímetros que os separavam logo deixaram de existir. Eles podiam ouvir os corações trepidarem. As mãos tremiam e uma corrente de ar pairava sobre suas cabeças.
O frio na barriga que sentiam quando estavam perto tinha triplicado. Eles ofegavam e os olhos derramavam o mundo de emoções que traziam em si. O beijo foi tímido de início. Lucas e Mariana trocavam selinhos, testando um ao outro. O medo que sentiam de perderem-se resistia ao efeito do álcool, mas o desejo era mais forte.
As pontas dos dedos tocando-se sutilmente, tal como os lábios. Os movimentos pareciam ensaiados. Como um ballet sincronizado, os dedos deslizaram, entrelaçando suas mãos. Os narizes resvalaram. As respirações soavam como murmúrios.
Os lábios do Lucas aprisionaram o lábio superior da Mariana. Ela recolheu o lábio inferior, derrapando sobre a textura suave da boca do amigo. O calor espalhou-se onde seus corpos se tocavam. As línguas encontraram-se e as mãos soltaram-se, afoitas para atarem-se aos seus corpos.
Os pensamentos estavam desconexos. Paixão pulsava entre eles, recobrindo suas peles de suor. A madrugada passou num piscar de olhos e quando o dia amanheceu, Mariana despendeu vários minutos admirando o amigo dormindo ao seu corpo e relembrando a noite que tiveram juntos.
Ela teria pensado que foi mais um dos muitos sonhos, que sempre invadiam seu sono, se não tivesse despertado em peças íntimas. Não, eles não haviam ultrapassado os beijos, o que a deixou frustrada em certa medida. Ter a sua primeira vez com o Lucas era tudo o queria, todavia não protestou ao argumento do amigo.
“Quero você, mas quando acontecer, quero que seja tudo sobre esse momento. Bebi demais e não quero estragar as coisas” — disse-lhe, subindo as alças do sutiã e beijando o seu ombro.
O amigo não estava mentindo e ela sabia que era o melhor para ambos, assim não poderiam culpar o álcool pelo que viesse a ocorrer. Mariana assentiu e eles retomaram os beijos e carícias. Ela adormeceu nos braços do Lucas, enquanto ele tracejava seu rosto na ponta dos dedos e dava-lhe selinhos.
Incerta sobre como se comportar ou o que dizer quando o amigo acordasse, decidiu fingir que ainda dormia. Pegou a camisa do amigo, que estava jogada acima das suas cabeças, vestiu-se e deitou, abraçando-o. Ele passou o braço em volta do seu corpo e deu-lhe um beijo nos cabelos. Mariana ficou quieta, pensando que talvez o tivesse acordado, contudo percebeu que Lucas ainda dormia e permitiu-se acarinhar o torso do amigo.
Ao abrir os olhos, a primeira coisa que Lucas viu foi o ventilador de teto. Praguejou em pensamentos por ter bebido tanto. Estava com uma ressaca infernal e não lembrava como tinha terminado no tapete do quarto abraçado a uma garota.
Ele fechou os olhos e inspirou profundamente, lutando para resgatar qualquer memória. Não adiantava, ele não fazia ideia de quem era a garota, se ficaram nos amassos ou se fizeram sexo. Esperava que ela não ficasse chateada quando lhe perguntasse.
Lucas abriu os olhos e mirou a garota. Aquela cabeleira. O perfume que predominava no ar. Não podia ser. Sobressaltado, ele deslizou para longe da garota e levou os braços a cabeça, pressionando a têmpora. Antes de voltar a olhar para a garota, convenceu-se que era a ressaca pregando-lhe uma peça.
O coração quase parou quando constatou que era Mariana deitada ao seu lado, vestindo sua camisa. Ele usava só a boxer. Levantou depressa, recolheu as roupas da amiga e empilhou sobre a cama. Não havia indícios de camisinha no quarto. Revirou até os cantos do tapete e não encontrou nenhuma embalagem aberta.
Ele tomou uma ducha gelada para aliviar a ereção e pôr em ordem os pensamentos. Concluiu que ficaram conversando depois que todos se foram, perderam a noção do tempo e Mariana decidiu passar a noite, por isso trocou suas roupas pela camisa que ele vestia.
Lucas nunca gostou de dormir vestido e eram amigos há tantos anos que deve ter se livrado da calça sem cerimônia. Claro que isso só aconteceu porque tinha mais álcool circulando no seu sangue do que seu corpo dava conta de processar, porque se estivesse raciocinando saberia que dormir tão perto de Mariana, sentindo o calor da sua pele e seu cheiro, lhe deixaria duro só de pensar.
Do outro lado da porta do banheiro, a garota sentou-se de pernas cruzadas e ponderou sobre os últimos minutos. O amigo pulou para fora do tapete tão rápido quanto era possível. Ela prendeu a respiração assim que ele a afastou. Lucas não se demorou ao seu lado, não a olhou por longos minutos, como ela fizera, não lhe fez nenhum carinho, sequer a tocou.
Mariana agradeceu em pensamentos por ter fingido dormir. De todas as formas que imaginou que o amigo pudesse agir, todas estavam abissalmente distantes da realidade. As lágrimas ameaçavam romper as amarras internas. A garota levantou-se, removeu a camisa e vestiu suas próprias roupas, saindo apressada.
O garoto estranhou não a encontrar ao sair do banho. Após tomar uma xícara de café e um comprimido para dor de cabeça, lhe escreveu. A garota estava no metrô quando recebeu a mensagem do amigo.
— Bom dia?
— Bom dia, Lucky.
— Pensei que fôssemos tomar café da manhã juntos.
— Assuntos urgentes.
— Você viaja hoje à noite. O que poderia ser urgente?
— Checar malas. Passaporte. Essas coisas.
— Te vejo mais tarde?
— Não sei se terei tempo.
— Nana, você está indo embora por sei lá quanto tempo. Arrume tempo para o seu melhor amigo. Almoça comigo?
— Ok, Lucky.
— Até daqui a pouco. Avisa onde devo te buscar.
— Em casa, às treze.
Lucas abriu a foto de perfil da amiga e a observou com pesar. Seria difícil ficar distante dela. Podia imaginar quantos amigos novos ela faria durante a viagem, quantas paixões despertaria, no entanto o que lhe interessava era descobrir quantos amores ela corresponderia.
Mariana enfiou o celular na bolsa e olhou além da janela do metrô. Pensou no beijo que desejava há anos, no toque gentil do Lucas, nas suas palavras. Repassou o comportamento do amigo ao acordar e lembrou que ela mesma tinha ficado nervosa e insegura quanto a como se comportar. A caminho de casa, com o olhar perdido entre pessoas e vagões, a garota justificou as ações do amigo com base nas suas. Tomando para si parte da responsabilidade dos acontecimentos da manhã. Se Lucas tivesse pensado que ela foi quem fugiu?
A garota gastou horas em frente ao espelho, vestindo-se para o almoço e ensaiando a conversa que teria com o amigo. Criando possíveis diálogos, formulando respostas que julgava adequadas para explicar o motivo de ter dado no pé sem ao menos cumprimentá-lo.
O garoto ficou confuso com o comportamento indiferente da amiga. Esforçou-se tanto quanto pode para lembrar do desfecho da festa, entretanto só recordava de virar copos e mais copos, tentando de modo estúpido e ineficaz esquecer que a garota por quem era apaixonado, há quase cinco anos, estava indo embora e ele era covarde demais para pedir que ficasse.
Lucas projetou inúmeros cenários onde revelava a amiga os seus sentimentos. Analisou e ponderou as mais diversas possibilidades na sua mente, tinha inclusive decidido que contaria tudo, uma ou duas vezes. No momento final, sempre desistia. O medo que sentia de a amiga rechaçar a sua paixão o afugentava.
Nenhum dos dois planejou se apaixonar. Eram perfeitos como amigos. Eles se entendiam sem que palavras precisassem ser ditas. Estar juntos bastava para afugentar o maior dos pesares, tinha sido assim quando os pais do Lucas se separaram ou quando a mãe da Mariana descobriu que estava com câncer. Não entendiam o porquê tinham que complicar tudo com sentimentos românticos.
Quando se encontraram para o almoço, havia um clima diferente. Lucas abraçou a amiga como fazia todas as vezes, entretanto, ao depositar um beijo na sua testa, a garota encolheu os ombros e deu um passo para trás, rompendo a proximidade existente.
Ele estreitou os olhos, confuso. Mariana agia de um jeito estranho e o amigo não conseguia identificar a razão. Ela não podia acreditar que o garoto fosse fingir que eles nunca se beijaram. Entenderia se dissesse que estava arrependido, que preferia que nada mudasse entre eles, mas ser indiferente aos momentos que tiveram juntos era demais para suportar.
A vontade de sair correndo era imensa. Foi necessário muito esforço para impedir que as lágrimas transbordassem. Mariana engoliu o choro e sorriu, não deixaria Lucas perceber o quanto a tinha magoado. Longe dali, poderia esquecê-lo, e dentro de algumas horas estaria embarcando para uma viagem ao redor do mundo, por tempo indeterminado. Era o cenário perfeito para colocar um ponto final num amor juvenil e platônico.
Sufocando o orgulho e um coração partido, ela aproveitou o que seriam os últimos minutos, em um longo tempo, ao lado do seu melhor amigo. O garoto tinha o dom de lhe roubar os melhores sorrisos, o que tornava impossível manter-se chateada na sua companhia.
Lucas notou que a amiga estava com um brilho lacrimejante nos olhos, associou a sua partida e deu tudo de si para fazê-la rir. Ele amava o seu sorriso, o som da sua gargalhada e a forma como seus olhos ficavam pequeninos enquanto sorria.
Em frente ao prédio que Mariana morava com os pais, ela pediu que ele não fosse ao aeroporto, não queria uma grande cena de despedida. Contrariado, concordou e a puxou para um abraço. De olhos fechados, ele inalou o perfume dos seus cabelos e seu queixo derrapou, tocando a testa da amiga. Uniu os lábios e pousou-os ali, desejando que só por uma vez pudesse beijá-la como gostaria.
— Promete que você não vai me trocar por um gringo metido a besta? — perguntou apertando-a entre seus braços.
— Você é meu melhor, Lucky.
— Volta logo — disse, frustrando o seu coração que queria pedir-lhe para ficar.
— É uma volta ao mundo. Não posso fazê-la em três dias.
— Sentirei saudades.
— Eu sei — concordou, sorrindo. — Agora vai. — Empurrou-o, desfazendo o abraço.
Ele a olhou. A garota sinalizou com as mãos para que o amigo partisse. Lucas caminhou de costas, sem romper o contato visual. Sentia seu coração dar solavancos à medida que a distância se tornava maior e o sorriso no rosto de Mariana era substituído por um córrego de lágrimas. Interrompeu as passadas, intencionando voltar e abraçá-la outra vez, todavia ela moveu a cabeça em negativa e ele atendeu ao seu pedido.
Mariana levou as mãos aos lábios e soltou um beijo no ar. Lucas o agarrou como se fosse um bem precioso e segurou, a mão fechada, junto ao peito. Ela sorriu e deu-lhe as costas, adentrando o prédio. Ele seguiu para o carro e por alguns minutos permaneceu parado ali, pensando no que o destino reservava para eles.
Perguntava-se quanto tempo a garota que tinha seu coração nas mãos ficaria longe. Quantos amores ela encontraria no caminho? Seria capaz de deixá-los para trás? O vínculo que existia entre eles sobreviveria a distância e ao tempo? Pela primeira vez temia que seu silêncio fosse o responsável por arrancá-la da sua vida.
Lucas dirigiu para o Café que administrava com um amigo, o reduto geek como Mariana chamava. Ambos foram aprovados na Universidade Federal, como não teriam o custo da mensalidade, investiram parte da poupança que seus pais tinham criado para o Ensino Superior no negócio. Era uma pequena cafeteria, com uma decoração jovial e intimista, as paredes em lousa, onde os visitantes podiam deixar mensagens, prateleiras com livros e quadrinhos, um ambiente que transmitia conforto e acolhimento.
O local estava sempre movimentado e o grande diferencial era a interação dos donos e funcionários com os clientes, que comumente tornavam-se amigos, por essa razão o abatimento do Lucas foi notado por todos e depois de muitas negativas, ele terminou relatando suas inseguranças ao sócio e amigo.
Caio conhecia bem a relação de Lucas e Mariana, para ele era nítido que ambos se gostavam e duvidada que nunca tivesse rolado um beijo, apesar de ouvi-los insistir que era apenas amizade. Como não ia se intrometer na confusão amorosa dos outros, bastava as suas próprias, fingia acreditar, na certeza que um dia os dois enxergariam o óbvio e assumiriam de uma vez que eram apaixonados.
Ao ouvir a confissão, logo incentivou que o amigo fosse ao aeroporto e deixasse a garota saber o que sentia por ela. Lucas estava indeciso. Se ela pensasse que ele queria impedi-la de aventurar-se pelo mundo? Depois de tantos anos amando-a em silêncio, seria justo confessar o seu amor naquele momento? Quando não podiam estar juntos. Aprisioná-la a promessa de um relacionamento poucos minutos antes de ela voar mundo a fora?
— Disse o que penso. A decisão cabe a você, parceiro — disse Caio, levantando e afagando o ombro do amigo. — Vá para casa.
— Não vou recusar, cara. Minha cabeça tá dando nó.
— Pode ir. Eu e o pessoal seguramos as pontas.
Era final de domingo, o café estava lotado, tinha consciência que iria sobrecarregar o amigo, mas sua mente estava distante e não adiantaria ficar, seria um peso morto. Lucas voltou para o apartamento, tomou um banho e desabou na cama, tentando decidir o que faria.
Mariana revisou a lista de objetos para a viagem pela enésima vez e novamente constatou que tudo estava em ordem. Com lágrimas banhando as maçãs do rosto, sentou-se aos pés da cama e abriu uma das malas para conferir item a item. Não havia esquecido nada, somente precisava ocupar a mente.
A mãe vendo-a chorar, sentou-se ao seu lado e a abraçou, dizendo que tudo correria bem. Não poderia adivinhar que o motivo do choro copioso da filha era um coração partido e não aflição diante do universo desconhecido que a aguardava do outro lado do oceano.
A garota apressada em voar para longe daquele que feriu seus sentimentos, partiu para o aeroporto horas antes do horário previsto. Seus pais tentaram demovê-la em vão e foram dominados pela confusão quando a filha decidiu esperar até o último minuto para adentrar a área de embarque. Mariana recordou da amnésia alcoólica do amigo e permitiu-se ter esperanças. Ele podia não lembrar do beijo, mas a forma como a beijou a fez acreditar que era correspondida nos seus sentimentos.
Ela passou pelo detector de metais e ouviu seu nome ecoando no alto-falante. Por um instante, sonhou que pudesse ser o Lucas pedindo que ficasse. Suspirou frustrada. Era a companhia área avisando que estavam aguardando-a. Tudo o que faltava, ser o centro das atenções. A garota pegou a bolsa e correu para o portão de embarque, desculpando-se pelo atraso.
Lucas tinha perdido uns bons minutos na fila do estacionamento. Arrependeu-se não ter pego um uber. Quando enfim estacionou, saiu em disparada e entrou correndo pelas portas do aeroporto.
— Lucas? — Alguém segurou o seu braço.
— Oi?! — Parou afoito, virando-se para o seu interlocutor. — Não — murmurou, diante dos pais de Mariana. Eles olharam-no sem entender. — Não pode ser tarde demais. Ela embarcou?
— Há uns cinco minutos — respondeu o pai da garota.
— Droga!
—Estamos de carro. Quer uma carona?
— Não, senhor. Obrigado. Acho que vou ficar por aqui um pouco.
— Tudo bem, Lucas?
— Sim, senhora. Quero pensar.
— Ela não vai te esquecer durante o voo. Estou certa que você poderá dizer-lhe o que gostaria quando ela pousar em Florença — comentou a mãe da garota, como se soubesse o que ele queria falar.
—Vou...
— Dar um tempo por aqui. — A senhora sorriu, deu o braço ao marido e acenou em despedida.
Lucas sentou, tirou o celular do bolso e olhou para a foto da amiga. Cogitou telefonar. Não era o certo. Deveria ser olho no olho. Discou para outro número, checando algumas informações. Em seguida, ligou para o Caio e contou-lhe o que decidiu.
— Faça o que tiver que fazer. — Era o que esperava ouvir.
Horas depois, Mariana desembarcava em Florença. Era início da tarde, o dia estava ensolarado. Ela tinha reservado um apartamento mobiliado, queria ter a experiência completa de morar em outros países. Encaminhou-se para o Mercado Sant'Ambrogio, que ficava a 300 metros do imóvel alugado, e onde o proprietário era dono de um restaurante. De posse das chaves, pegou uma porção de comida para viagem e seguiu para o novo lar.
Ficou feliz que o apartamento estivesse cheirando a limpeza. O cansaço revestia cada fibra do seu corpo. O voo foi longo e ela não conseguia relaxar estando sozinha e cercada por desconhecidos. Tinha passado todas as horas em trânsito lendo. Adiaria a arrumação das malas para o dia seguinte, ou o próximo.
Nunca gostou de desfazer malas, por isso tinha colocado algumas roupas na bagagem de mão. Tomou uma ducha, vestiu uma calcinha boxer e uma camisa antiga do Lucas. Ele tinha esquecido na sua casa quase um ano atrás e desde então tornou-se o seu pijama favorito. Devorou a refeição e jogou-se na cama, enviando mensagens para os pais e o melhor amigo.
Mariana avisou-os que estava na sua nova casa, que tudo ocorrera bem na viagem e que hibernaria pelas próximas horas. Não esperou por respostas. Suas pálpebras pesavam toneladas. Deixou-as fecharem-se, soltou o celular sobre os lençóis e puxou um dos travesseiros, abraçando-o.
Despertou era noite. O celular tocava a música que Lucas escolheu como seu toque. Abriu os olhos meio desorientada. Tateou a cama, buscando pelo aparelho. Ao encontrá-lo, olhou o visor, ainda confusa. Eles combinaram que se falariam por vídeo chamada, no aplicativo de mensagens, previamente agendadas. Por que ele estava ligando? O custo de ligações internacionais estava fora do seu orçamento.
Fixou o olhar na tela, certificando-se que não era a sua mente pregando-lhe uma peça. A foto do amigo sumiu e seus olhos detiveram-se no ícone de chamada perdida. Moveu o dedo, pensando em abrir o aplicativo de mensagens, porém uma nova chamada interrompeu sua ação.
— Lucky, o que houve?
— Saudades.
— Meu Deus, Lucas! Pensei que tinha acontecido algo. Prometemos que não faríamos ligações...
— Foi uma emergência. Estou com muita saudade.
— Estive com você ontem.
— Como está o tempo aí?
— O quê?
— O tempo. Como está? Chovendo? Frio? Quente?
— Você está entediado?
— Muito! Tira uma foto da vista da sua sacada e me envia.
— É noite aqui e a única vista seria do céu. Amanhã, prometo que farei uma fotástica. — Lucas acrescentava “tástico” a uma palavra, quando queria expressar intensidade e Mariana sempre se valia do superlativo inventado pelo amigo.
— Deixa de ser chata. Faz a foto, Mariana.
— Lucky, estava dormindo. Estou descabelada, vestida com uma camiseta larga e com a cara amassada. Não é como quero ser vista pelos meus novos vizinhos pela primeira vez.
— Quero conversar como se estivesse aí, com você.
— Você é um mala, Lucas! — A garota deu-se por vencida e levantou-se. Mirou-se no espelho e fez uma careta para seu reflexo. — Já disse o quanto você é insuportável?
— Hoje ainda não. — Ele sorriu e inclinou a cabeça para trás, fitando o céu. — Estou esperando, Nana.
— Calma, Sr Apressado — a garota resmungou com o amigo, fazendo-o rir. Ela destravou a porta e saiu. Percorreu a sacada, aproximando-se do beiral, e inclinou o rosto para cima, admirando a lua. Podia ouvir a respiração do outro lado da linha. — Deixe-me fotografar.
— Reconheço essa camiseta.
— O que você disse? — perguntou confusa e, instintivamente, seu olhar vagou pela noite a procura do garoto.
— Disse que estava com muita saudade.
Mariana deu um sorriso largo ao vê-lo debaixo da sua sacada. Esqueceu que estava falando ao celular e abaixou ambas as mãos, debruçando-se sobre o parapeito.
— O que você está fazendo aqui?!
Lucas riu da surpresa nítida na voz da garota e exibiu o celular, sinalizando para a amiga levá-lo ao ouvido. Ela compreendeu o seu gesto e o obedeceu.
— Pare de gritar, mal chegou e quer causar intriga com os vizinhos?
— Ainda não estou acreditando que você está mesmo aqui.
— Vai me deixa subir ou serei obrigado a dormir na rua?
— Ah, sim! Desculpa, vou abrir o portão. Tenho que entrar para alcançar o interfone.
— Tudo bem. Te vejo em alguns minutos.
— Apartamento 23. — A garota adentrou o quarto. Seguiu para a pequena sala e avistou o aparelho no balcão da cozinha. — O que deu em você para vir assim? — questionou, liberando a entrada do amigo.
— Há coisas que só podem ser ditas pessoalmente.
— Coisas? — Ela franziu o cenho, perguntando-se sobre o que o garoto estava falando. — O que você teria para me dizer? — Abriu a porta e esperou que ele subisse os dois lances de escada.
— Você tem algum arrependimento?
Mariana pensou por instante. Ela o beijaria de novo e de novo, quantas vezes fosse possível, independente de ele fingir que nunca houve um beijo.
— Não. Faria tudo de novo.
— É por isso que estou aqui. — O garoto surgiu no corredor, com uma mochila pendurada no ombro. Sorriu para a amiga. Ambos correram e encontraram-se num abraço demorado, carregado de sentimentos prestes a eclodir. — Nana. — Ele a olhou, sentindo o coração esmagando seu peito. — Há anos guardo um segredo. Pelo próximo ano, ou talvez mais, estaremos distantes. Tudo pode acontecer. Você pode encontrar o amor em qualquer lugar do mundo e me arrependerei de nunca lhe ter dito que estou apaixonado por você.
— Você não lembra que nós ficamos, né? — Apesar das lágrimas que despontavam, ela sorria. Lucas estreitou os olhos, sem acreditar que tinha esquecido de tê-la beijado. — Sábado.
— Isso foi péssimo. — Ele segurou o rosto dela e recostou suas testas. —  Nana, me perdoa. Prometo que não bebo nunca mais na vida. Queria te beijar a tanto tempo e...
— Lucky. — Ela pousou a ponta dos dedos sobre os lábios dele. — Lembra o que disse antes? Faria tudo de novo.
— Isso quer dizer que você ainda me beijaria?
— Estou me perguntando o que você está esperando para me beijar.
Lucas levou as mãos a cintura de Mariana, envolvendo-a ao passo que seus lábios se uniram com impetuosidade. Beijaram-se como haviam feito antes e o garoto viu-se num dèjá vu. Como pudera esquecer aquele beijo?
— Eu lembro — murmurou, deslizando uma das mãos no rosto da garota.
— Tudo?
— Podemos ter aquele momento agora, se você ainda estiver a fim.
— Era só o que queria saber. — Jogou os braços nos seus ombros e pulou no seu colo, travando as pernas no seu quadril e beijando-o.