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Há alguns meses eu e o namorido caminhamos todas as tardes, em um dos nossos trajetos passamos em frente a um terreno descampado. Dia após dia observamos pequenas flores surgirem, em dois ou três meses o lugar tornou-se um imenso campo florido. Veio o Natal e nós furamos alguns dias de caminhada, dois ou três, não mais que isso, e quando voltamos percebemos que havia algo diferente, o tapete amarelo estava desfalcado em muitas partes, outras tantas perdendo sua vitalidade, as pétalas murchas despreendendo-se com o mais frágil vento. As flores estavam morrendo.

Ok, é o ciclo de vida delas, nada demais. Era só isso até que o namorido comentou: "como deve ser triste ser uma flor". Eu que nunca tinha pensado a respeito, me vi perguntando "por quê?!". A conversa enveredou pela brevidade e restrição de suas vidas, que dependem do solo, do ar, dos insetos (existem os que as matam e aqueles que trazem algo de bom para suas vidas, como as abelhas e o beija-flor) e da chuva (ou um humano que as regue) para existir.

Poxa, aquilo ficou na minha cabeça, não pelas flores em si, acredito que sua existência tem propósito no tempo que lhe cabe, mas porque estamos sempre (ou quase) ouvindo, dizendo e repetindo a ideia de que nós (especialmente mulheres) devemos "ser flor". Aí fui pesquisar textos, poesias, artigos sobre o ciclo de vida das flores (sou dessas) e encontrei uma poesia do Fagundes Varela, transcreverei um trecho para que entendam o que senti:

"Surgiu na aurora, não chegou à tarde,
Teve um momento de existência só!
A noite veio, procurou por ela,
Mas a encontrou no pó.
Ouviste, oh virgem, a legenda triste
Da flor do outeiro e seu funesto fim?
Irmã das flores à mulher, às vezes
Também sucede assim."


Termino por dizer: Não sejamos flores!
Não quero ser flor, porque não nasci flor.
Nasci mulher, livre e independente.
Diferente da flor que tem suas raízes enterradas e só pode esperar que o solo e tempo lhe sejam gentis, nós temos o poder de mudar de solo, de buscar outros ares, de nos afastar de quem nos machuca e escolher estar ao lado de quem nos faz bem.
Não sejamos flores, sejamos aquilo que nascemos para ser: mulheres!

 

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