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O Cavalheiro Tatuado e a Bruxinha:

O SEQUESTRO DO CORAÇÃO


 
 Noveleta Erótica, não recomendado para menores de 18 anos,.
Apresenta cenas gráficas  de sexo.
 
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1. Kiara

 

— Não tinha nada menos óbvio? — Analisei-me no espelho, ajeitando o decote ridículo do corselet que compunha a fantasia.
— Você me avisou de última hora que não tinha providenciado o que vestir, me virei com o que encontrei. Era bruxa ou enfermeira sexy, e imaginei que arrancaria minha cabeça se trouxesse uma fantasia semitransparente.
— Estaria mais confortável de calcinha e sutiã.
— Ninguém está te impedindo. — Minha amiga ergueu as mãos quando fitei seu reflexo. Ela vestia uma fantasia inspirada em A Noiva Cadáver, os cabelos loiros foram tingidos com spray roxo. — Podemos fazer uma maquiagem sangrenta e você será a gostosa que sempre morre nos primeiros minutos dos filmes de terror com grupos de jovens no enredo.
— Você fez parecer quase tão ruim quanto estar com metade dos seios expostos e uma microssaia. — Joguei os cabelos de lado e coloquei o chapéu. — Pelo menos lembraram de pôr uma meia-calça como incremento.
—  Na verdade não, isso você deve a minha pessoa.
— Sabia que existia algum motivo para te amar.
A buzina soou quase que no mesmo segundo que o celular de Penélope vibrou sobre a cama. Ela pegou o aparelho e acenou para mim, confirmando se estava pronta — ao que anuí —, antes de avisar ao namorado que estávamos descendo. Guardei o celular no bolso escondido na bota, peguei a bolsa e saímos.
Nós dividíamos um apartamento perto do campus, pequeno e sem luxos, mas confortável. A conheci fazia menos de um ano. Meu melhor amigo é namorado do irmão dela e quando ambos decidiram morar juntos, ela estava buscando alguém para dividir um lugar e como não me adaptei bem as acomodações do alojamento — gostava de ter privacidade e as minhas coisas organizadas —, eles tiveram a ideia de nos apresentar e nos tornamos amigas.
A festa de Halloween aconteceu num bosque há alguns quilômetros da cidade. Estacionamos e seguimos pela trilha. A música alta e as luzes não deixariam com que nos perdêssemos. Logo que alcançamos a clareira, avistei muitos monstros, zumbis e bruxas dançando, outros sentados próximo a fogueira com seus espetos de marshmallow. Virei para Penélope, que vinha abraçada com o Darci, e apontei para minha fantasia.
— Você é a bruxa mais gostosa! — Ela piscou para mim, provocando-me por ter ouvido tantas reclamações sobre a minúscula fantasia. — O embuste está vindo para cá.
Penélope mal tinha fechado a boca e senti uma mão na minha cintura.
— Não encosta em mim! — exclamei, virando-me e o empurrando.
— Você está gostosa, Kia.
— Não me toque — disse entre dentes —, e não me chame assim.
— Taylor, fica na sua, Kiara não quer papo contigo ­— advertiu Darci.
— Vocês não têm nada que se meter, a conversa é de casal.
— Casal? Você está maluco?! Vá procurar outra idiota para iludir, porque em mim você não encosta nem mais um dedo.
Troquei um olhar com Penélope, avisando-lhe que a encontraria depois e dei as costas para o Taylor.  Fui atrás dos barris de cerveja, virei três copos na intenção do embuste do meu ex, mandando-o para a puta que o pariu, porque ele não estragaria minha noite, tampouco minha vida.
Desde que terminamos, tinha evitado festas e locais onde pudesse ter pessoas que sabiam do que aconteceu, mas se alguém tinha que se envergonhar era ele. Eu adorava dançar, coisa que o Taylor odiava que fizesse, segundo ele, todos me olhavam. Eu dançava porque gostava e não para ter atenção alheia. Dançava para mim.
Pedi ao DJ para colocar músicas mais agitadas e ele atendeu ao meu pedido. Minha noite estava começando. Vi o Taylor me olhar com raiva e me senti mais livre do que nunca ao ignorá-lo.

 

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2. Théo

 

 
A bruxinha era uma visão angelical que em nada condizia com a fantasia extremamente sexy que emoldurava suas curvas. Os cabelos negros, nos ombros, realçavam os traços delicados e o jeito como dançava era hipnotizante. A espontaneidade com que se movia dizia que ela não o fazia para seduzir, ela só estava curtindo a música.
No entanto, eu não conseguia parar de olhá-la desde que a vi perto dos barris. Ela parecia chateada, virou três copos de cerveja e foi como se dissesse para si mesma que nada, nem ninguém, tinha o poder de estragar sua diversão. Encaminhou-se para a mesa do DJ, cochichou algo, e quando uma nova música teve início, ela se deixou levar e não parou mais.
Meu olhar constante fez com que percebesse que a estava observando e por um instante pensei que fosse parar e fugir, todavia, o sorriso que se formou em sua face fez uma confusão na minha cabeça. Quem era aquela garota?
— Por favor, que eu não tenha dormido com ela — murmurei ao vê-la se aproximar.
— Vem dançar! — Ela entrelaçou nossas mãos e me arrastou. — Assassin's Creed — comentou, virando-se de frente para mim e abaixando meu capuz. — Adorei! Não ouse falar que gostou da minha fantasia, foi o que rolou de última hora.
— Não acho que possa ficar mais linda do que é.
— Boa escolha de palavras.
Ela frisou os fios de meu cabelo, bagunçando-os e deu um passo para trás, voltando a dançar. Eu preferia tê-la junto a mim, acomodada entre meus braços, porém respeitaria o espaço que impôs. Dançamos por um caralho de músicas e aos poucos a distância deixou de existir, sentia o calor que ondulava sobre nossas peles. Tudo nela me atraía, não conseguia esconder o desejo de beijá-la e estar com ela de tantas outras formas.
Circundei sua cintura e ela pousou a mão sobre meu coração. Havia um assombro e um querer conflitantes no seu olhar. Ela enredou a ponta dos dedos por debaixo da sobrecasaca e alisou a camisa de linho. Abafei um suspiro frustrado, porque ainda existiam duas camadas de tecido entre seu toque e meu tórax. Subi uma mão e acaricie suas costas, acima do corselet, inclinando meu rosto na direção do seu.
— O que estamos fazendo?
— Mais alguns segundos e irei beijá-la.
— Não podemos. — Ela me afastou. — Jayden. — Sacudiu a cabeça em negação. — Você namora o Jayden. Droga, Thomás!
Ela saiu correndo antes que pudesse me explicar.
— Bruxinha, espera!
A grande maioria das garotas usava fantasia de bruxa. Quando a chamei, vários pares de olhos se viraram, nenhum era o que procurava. Trombei em algumas pessoas na tentativa de apressar-me para alcançá-la, seguindo por onde a vi desaparecer.
Avisei uma cartola, duvidava que tivesse mais alguém fantasiado de Jack, o estripador. Apressei-me naquele sentido e o olhar duro do meu irmão fitou-me. Lá estava ela, passos a minha frente. Ele a segurou, interrompendo-a, e ouvi a perplexidade no seu timbre.
— Tom?!
— O que você fez? — A pergunta foi dirigida a mim.
— Nada — sibilei, ofegante. Ela olhou para trás, depois para o Tom e novamente para mim. — Bruxinha, acho que precisamos nos apresentar.
— Você pensou que fosse eu? — A expressão do meu irmão atenuou-se e ele a virou para mim. — Kiara, esse é o Théo.
— O gêmeo. — Meu irmão a envolveu num abraço. — Vocês são idênticos, a voz, a altura.
— Nosso timbre destoa sutilmente, você perceberia se convivesse com ambos. Eu te contei que somos univitelinos.
— Tenho um metro e oitenta e oito, o que me faz três centímetros mais alto. — Pisquei.
— Você podia ter me dito que não era o Tom. — Ela me olhava espantada.
— Não percebi que tinha nos confundido até que me chamou de Thomás.
— Ah, claro! Você pensou que saio agarrando qualquer um para dançar.
— Imaginei que tinha percebido meu interesse e retribuído. — Fui sincero e ela enrubesceu com meu comentário.
— Como eu ia saber que você não era o Tom? Vocês usam corte e barba iguais, ambos aplicam luzes e com as mesmas nuances. Sempre achei que o Tom as usava para se diferenciar.
— Ao contrário, se te contar o motivo você vai me achar um cretino — confidenciou Tom, e desejei espancá-lo.
— Outros tempos. — O olhei em advertência.
— Você me conhece, Tom, não comece se não tiver intenção de terminar.
— Bobagem de garotos estúpidos, Kiara. — Ele a beijou na têmpora. — Sei o quanto você odeia traição e não pense que tolero de qualquer forma o que Taylor fez.
— Tom, fala de uma vez porque estou pensando o pior.
— Nosso outro irmão é loiro, e Théo e Fera eram dois aprendizes de cretino. Putos mirins, para ser mais exato. Estudávamos no mesmo colégio e somos muito parecidos, de costas todo mundo nos confundia, exceto pelos cabelos, então eles tiveram a ideia de ficarmos mais parecidos. Assim quando um deles era flagrado dando uma amasso em outra menina além da que estavam ficando, diziam que era o outro, e quando saíam juntos, se alguém os visse, eu era o bode expiatório. Para todos os efeitos, eu era bi até o fim do colegial. Essa fase passou e nos acostumamos com o loiro.
— Garotos. — Ela revirou os olhos, volveu o corpo e fitou meu irmão. — Dá um beijo no Jayden e avisa a Penélope que está tudo bem, ela não precisa se preocupar comigo. Hoje é um daqueles dias que não deveria ter saído da cama, okay? Vou embora.
— Quer que te leve?
— Não, divirta-se.
Ela deu um beijo no rosto do Tom e saiu sem despedir-se de mim. Meu irmão franziu o cenho, encarando-me com ar acusatório.
— Não avisei para você ficar longe da Kiara?
— Eu não sabia que a bruxinha angelical e sua melhor amiga eram a mesma pessoa. Ela é a fim de você?
— Não, Théo. Foi você quem criou um clima e agora ela deve estar se culpando por ter desejado me beijar, quando na verdade quis te beijar.
— Por que você me mandou ficar longe?
— Ela é minha melhor amiga, você é meu irmão. Não quero que ela olhe para mim e veja mais um babaca que partiu seu coração. Kiara é uma das melhores pessoas que conheço, Théo. Amo aquela garota e se você a machucar, não pensarei duas vezes, tomarei as dores dela e pedirei para o Jayden arrebentá-lo sem dó, como não serei capaz de fazê-lo.
— Adoraria conhecer a garota pela qual meu irmão me trocaria sem pensar duas vezes, embora isso me deixe um tanto enciumado. — Sorri. — Ela parece ser incrível.
— Ela é. — Ele tirou a chave do bolso. — Se acontecer de você chegar em casa antes de nós. — Entregou-me o chaveiro. — Ou depois também. Vai logo ou não a alcançará.

 

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3. Kiara
 
— Posso levá-la? — A voz grave entoada ao meu lado assustou-me, gritei e descruzei os braços, esmurrando o Théo. — Desculpe.
— De onde você surgiu?! Parece assombração!
— Você tem medo de fantasmas?
— Sim.
— Não. — Balançou a cabeça.
— É claro que sim!
— Prometo não mais assustá-la. — Ele despiu a sobrecasaca e me ofereceu.
— É melhor você voltar para festa.
— E deixá-la a mercê das assombrações?
A risada escapou sem que pudesse impedir.
— Você tem sinal no celular? — Aceitei o casaco.
— Deixe-me ver. — Tirou o aparelho do bolso. — Não. Você ficaria aqui sozinha esperando o telefone decidir funcionar?
— Era um plano melhor do que voltar e encarar o Jayden depois do que aconteceu. Eu pensei que você fosse o Tom e quase o beijei, isso é tão errado.
— Não sou o Tom e fui eu quem ia beijá-la.
— Porque deixei que soubesse que queria.
— Quem você queria que a beijasse, Kiara? Tom? — Ele tocou no meu queixo, erguendo-o e os olhos me sondaram. — Ou eu?
— Nunca pensei no Tom desse jeito, somos amigos.
— Mas?
— Quando estávamos dançando...
— Eu sei, você pensou que fosse ele. O que estou perguntando é se o que sentiu hoje, quando estava comigo, foi diferente e por isso você desejou que a beijasse?
— Não consigo responder, olho para você e vejo o Tom.
— Permita que a leve para casa e no trajeto eu me apresento, você verá que apesar de termos a mesma cara, corpo, cabelo e sei lá mais o que... Temos personalidades distintas.
— Está bem.
Nós percorremos o estacionamento e paramos defronte de uma picape, ele abriu a porta para mim e a fechou com um sorrisinho provocante, quase imperceptível. Rodeou o carro e adentrou a cabine, desabotoando a camisa.
— Théo, o que...
— Não ficarei nu, a não ser que você queira. — Ligou o aquecedor. — Estou com uma camiseta de malha por baixo, quero te mostrar algo para que sua mente quebre a associação com meu irmão.
Estreitei os olhos, curiosa, ele deu uma piscadinha e continuou abrindo os botões, ao terminar, arremessou a camisa atrás do banco e desamarrou o lenço do pescoço. Seu tórax era coberto por tatuagens até a altura do pescoço, assim como os braços. As linhas em sua maioria pretas, se entrelaçavam, desenhando figuras que se uniam formando outras e acompanhando a musculatura.
— É perfeito. — Toquei seu braço, dedilhando as tatuagens. A temperatura de sua pele estava quente. — Você tem outras?
— Nas costas, perna direita e mais algumas... — O motor roncou. — Qual o endereço? — Respondi e ele registrou no GPS. — Tenho piercings também.
— Onde? — Arqueei a sobrancelha. Ele meneou a cabeça sorrindo e logo compreendi. — Você não tem uma tatuagem lá, né?
— Talvez.
— Não doeu?
— É uma dor gostosa.
— Você tem mesmo? — Aquiesceu. — Tom tem medo de tirar sangue e você se fura inteiro de livre e espontânea vontade?
— Também tenho um piercing aqui. — Ele abriu a boca e levantou a língua, me deixando ver a joia fixada no freio.
— Você é um sujeito intrigante, Théo.
— Intrigante seria equivalente a muito interessante? Tenho um irmão estudante de Literatura como você, aprendi a importância de esmiuçar cada palavra. — Ri abertamente. — Sua vez, conte-me algo sobre você.
— Não tenho piercings ou tattoos, tenho vontade de colocar, mas não sei o que ou onde. O que você faz da vida?
— Contei que tenho uma tatuagem e piercings no pau e você só me diz que não os tem em qualquer parte? Cadê a equidade, Bruxinha?
— Peguei meu ex na cama com minha antiga colega de quarto. Nós estávamos juntos desde o primeiro semestre da faculdade. Eu tinha me mudado do campus para o apartamento que estou hoje. Esqueci de devolver as chaves e quando voltei para deixá-las com minha colega, descobri que minhas blusas e sapatos não eram tudo o que ela pegava. Os dois estavam na cama e fiquei sem reação, parada na porta, olhando-os. Ele saiu de dentro dela e veio na minha direção, dizendo que não significava nada e eu só conseguia olhar para o pau dele, porque... Porra, ele estava sem camisinha e nós também não usávamos. Eu saí de lá desesperada. Ele podia estar transando com sei lá quantas garotas... Foi o pior dia da minha vida, não pela traição em si, o que também foi horrível, entretanto, nem se comparava a não saber se estava com alguma doença. Só respirei aliviada quando recebi os resultados.
— Entendo o que você sentiu, fico aflito todas as vezes que faço os exames. Minhas parceiras de sexo são garotas aleatórias, é comum que nunca as encontre de novo, confiança não é algo a ser considerado, por isso sempre uso camisinhas, mesmo no sexo oral. Se você abrir o porta-luvas vai encontrar caixas de camisinhas femininas e masculinas. Tom diz que tenho medo de me sentir vulnerável, não conte que falei isso, mas ele está certo. Sou o cara que está disposto a entrar no fogo para salvar alguém porque é algo que posso ver e combater, não existe essa opção quando falamos de relacionamentos.
— Acho que é isso o que falta às pessoas, deixar-se ver como é, por trás das projeções idealizadas, como eu e você, aqui, revelando nossos medos e desilusões, nos mostrando como somos de verdade. Gosto de quem vejo, Théo. — Ele me olhou, sorrindo. — Agora percebo como você e Tom são diferentes, no entanto, também noto como são parecidos, e não apenas fisicamente. Sei que posso confiar em você porque, como o Thomás, você é sincero consigo mesmo e reflete isso nas suas ações.
— Meu irmão me disse que me trocaria por você sem pestanejar, está claro que você é mais do que confiável.
— Conte-me sobre você. O que faz?
— Sou voluntário do Corpo de Bombeiros desde os dezessete anos, estou concluindo o curso para atuar como paramédico, no próximo ano farei o treinamento para ser incorporado a equipe como bombeiro e graduação em Ciência do Fogo.
— Vida intensa, hein?!
— Acho que gosto um pouquinho de adrenalina. E você? Faz algo além da graduação em Literatura?
— Escrevo HQs, estou tomando coragem para enviá-las a uma editora.
— Quero ler!
— Sem chance, Tom e Penélope nem sabem sobre isto. Não deveria ter contado.
— Seu segredo está a salvo comigo.
— Você terá que me contar algo que mais ninguém sabe.
— Tem uma garota. — Desprendi os olhos da estrada e o mirei. Ele me olhou por um breve instante. — Nada me preparou para ela.
— Seja você mesmo, diga o que sente, a faça perceber seus sentimentos.
— Podemos fazer uma parada? Estou com fome.
— Sim, também estou... — Abaixei os olhos para meu colo. — Merda!
— O que foi?
— Minha bolsa ficou no carro do Darci, estou sem carteira e sem as chaves de casa.
— Podemos ficar por aí ou ir para o apartamento do Tom. Voltar também, se preferir buscar sua bolsa. Estou livre esta noite e fica tranquila que não cobrarei pelos meus serviços.
— Você me deixará pagar pelo jantar depois?
— Não há outra opção, não estamos num encontro. Se pagarei, você está obrigada a me convidar para jantar. — Ele parou numa lanchonete. — Só para que possa se programar, estou disponível amanhã também.
Théo destravou o cinto de segurança e girou o tronco, debruçando-se sobre o banco, nossos braços tocaram-se provocando um leve choque. Seu perfume envolveu-me, a fragrância densa que havia me inebriado quando dançamos. Puxando uma jaqueta de couro, ele retornou ao assento e a vestiu, saindo do carro em seguida. Abri a porta, mas antes que descesse, ele estava ao meu lado.
— O Cavalheiro Tatuado é o alterego do Bombeiro Destemido, ou o contrário? — Ele segurou-me pela cintura para me ajudar a saltar da picape. — Você pode ser tornar meu próximo personagem.
— Certifique-se de me deixar com a garota no final, ou ficarei muito bravo.

 

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4. Théo
 
Kiara tinha o record de mais tempo que estive com uma garota sem que que rolasse um amasso, e numa larga vantagem para o segundo lugar. Se eu queria beijá-la? Não restava uma única molécula no meu corpo que não ansiasse por ela. Queria desnudá-la, compreendê-la, descobrir o que a fazia perder uma batida. A bruxinha instigava-me. Eu era como um simples pedaço de papel, em segundos devorado pela imensidão de chamas que era ela.
Quanto mais me demorava em sua companhia, mais emblemática ela se mostrava. Quem era aquela garota? Não era mais seu nome ou de onde a conhecia que me perguntava, o que me inquietava era não ter controle algum sobre o que ela me causava.
Nós saímos da lanchonete horas depois, concordamos em ir para o apartamento que Tom e Jayden dividiam. Kiara não estava confortável com a fantasia e queria se trocar. Foi curioso perceber que minha primeira observação sobre sua roupa estava correta, ela não exprimia sua personalidade e, embora não pudesse negar o quão sexy estivesse, a ideia de vê-la como era, vestida com o que a fazia se sentir bem, me deixou excitado. Não de pau duro — se bem que é melhor nem entrar nesse mérito —, me referi a estar animado.
— Você acha que eles chegaram? Eu preciso pegar uma camisa do Tom para me vestir e não quero atrapalhar se eles estiverem aí.
O pensamento de tê-la dentro de uma camisa do meu irmão me incomodou ao extremo.
— Te empresto uma. — Indiquei o quarto de hóspedes. — Você quer algo mais?
— Seria demais esperar que você tivesse um sutiã. — Enrugou o nariz. — Você pode pendurar a camisa aqui na porta, vou tomar uma ducha e pego quando sair.
O apartamento tinha apenas dois quartos, se ela dormiria ali, eu ficaria no sofá, por isso dei uma arrumada básica enquanto ela tomava banho.
— Théo?
— Aqui!
— Era só para você saber que terminei, se quiser ir.
A bruxinha estava sem maquiagem, o cabelo meio úmido, culpa dos respingos do chuveiro, e ela os secava com uma toalha. Respirei aliviado por ter lhe dado uma camiseta preta, preservando minha sanidade, porque minha imaginação não precisava ver os contornos de suas curvas sob o tecido. A bainha ficou cerca de um palmo acima dos seus joelhos e as pernas longas me roubaram minutos de atenção.
— Théo?
— O-oi. — Olhei para a cama, recém forrada. — Você pode dormir aqui, ficarei na sala. — Peguei o par de roupas que separei. — Eu me enganei — disse, parando ao seu lado.
— Com o quê?
— Falei que você não poderia ficar mais linda.
— Agora você me deixou sem graça.
— Não fique, não disse nada além da verdade. Você é... — Acaricie a maçã do seu rosto. — Perfeita. Como disse sobre minhas tatuagens.
— Pode ser que estivesse falando sobre o conjunto da obra.
— Falta conhecer algumas partes para chegar a uma resolução técnica assertiva.
— Aceito fotos.
— Do meu pau? — Tive que rir. Ela mordeu a pontinha do lábio e assentiu. — Podendo ver ao vivo e você vai se contentar com fotos?
— Você me deixou curiosa, nunca vi um pau com piercing, tatuado então... Nem em sonhos.
— Essa conversa termina aqui, porque meio que prometi ao Tom que não faria nada que fosse magoá-la e não sou o cara que liga no dia seguinte.
— Se não estiver esperando que me ligue?
— Bruxinha, o que...
— É você quem eu quero beijar, Théo. — Ela soltou a toalha com que secava o cabelo e dedilhou meu lábio.
— Só beijar? — Joguei as roupas que segurava na cama e a agarrei, arrastando a bainha, minhas mãos subindo por sua bunda. — Você quer isto, Bruxinha? — Passei a camiseta por sua cabeça e abocanhei seu seio.
— Tudo o que você tiver pra mim, Cavalheiro Tatuado.
Cobri sua boca, minha língua costurando sobre seus lábios. Ela me recebeu faminta. Enroscou os dedos em meu cabelo, tomando o controle. Exigente, beijou-me com arroubo. Chupando-me. Mordendo-me. Apoderando-se tanto quanto doava-se. Empurrei a calcinha por suas pernas e a enganchei no meu quadril. Eu queria mais, muito mais do que uma foda que nos deixaria com as pernas bambas, queria que ela tivesse tudo de mim. Movi os beijos para seu queixo, descendo-os por seu pescoço e amando seus gemidos.
— Vamos fazer isto direito.
A levei para o banheiro e pus em pé no box para que pudesse me despir. Arrastei a camiseta pela gola. Ela me olhou com lascívia, a ponta da língua umedeceu os lábios e, por conseguinte, os dentes arranharam-no, intensificando o vermelho vibrante em sua boca. Tinha me desfeito das botas no tempo que estive no quarto, desci o zíper e chutei a calça abaixo. Meu pau forçava o tecido. Não perdi o arpejo infrene que ela emitiu em seguida a retirada da boxer.
— Perfeito... — Ela engoliu alto. Entrei no box e o fechei. — Muito perfeito — murmurou, envolvendo meu pau. Sua mão tocou no piercing frenum[1] e suas íris revelaram surpresa. Dois piercings estavam à sua vista, um apadravya[2] e outro pubic[3], ela pensou que fossem os únicos.
— Quantos? — Seus dedos circundaram minha glande.
— Seis, fora o da língua. Dois ficam logo acima das bolas[4] e um no períneo[5].
— E a tattoo?
— Ainda não.
A pressionei contra a parede e mordisquei seu mamilo. Ela gemeu e senti o aperto dos seus dedos se tornar mais firme ao redor do meu pau. Chupei o outro mamilo e antes de soltá-lo, mordi, colocando mais pressão a carícia. Kiara aumento o ritmo com que me masturbava e gememos juntos. Repousei ambas as mãos na sua cintura e percorri seu busto, cobrindo-o de beijos molhados e ardentes.
Avancei, beijando-lhe o pescoço, enlouquecendo com os arrepios que recaíam sobre sua pele e o arfar de sua respiração. Ela deslocou as mãos para minhas costas. Busquei por sua boca e a devorei. Tateei à minha esquerda e ao ter êxito na busca, liguei o chuveiro e nos movi para debaixo do jato.
 
[1] Posicionado horizontalmente logo atrás da glande sob o eixo, chamado frênulo, ou em várias linhas horizontais ao longo do fundo do eixo.
[2] Perfurado verticalmente através da glande, de cima para baixo ou vice-versa.
[3] Consiste em uma joia em qualquer parte da área ao redor da base do pênis.
[4] Hafada — feito em qualquer lugar do escroto, geralmente na frente do meio do escroto ao longo da rafe escrotal.
[5] Guiche — percorre horizontalmente o períneo, a pele sob o escroto entre as nádegas e o ânus.

 

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5. Kiara
 
O amasso durante o banho rendeu uma massagem. As mãos grandes tocaram nos pontos certos, apalpando e apertando com a intensidade exata para me deixar louca de tesão, o que ficou incontrolável após enxugar-me cuidadosamente. Ele me fez deitar na beirada da cama, ajoelhou-se no chão e abriu minhas pernas, arregaçando-as de modo que minha boceta ficasse exposta as suas carícias.
Apoiei-me nos cotovelos. Do ângulo onde estava, Théo surgia no eixo entre minhas pernas. Os braços abertos, mãos alisando meus tornozelos e os lábios exibiam um sorriso satisfeito. Chamas dominaram meu corpo em reação ao seu olhar.
— Você é deliciosa, Bruxinha. — Ele lambeu-me de leve.
— Théo, não me importo se quiser que ponha uma camisinha.
— Confio em você. — Não me soou absurdo suas palavras, também confiava nele mesmo que só o conhecesse a algumas horas. Thomás era nossa apólice de seguros.
Uma segunda lambida e uma terceira. Mordi o lábio, contendo um gemido. A ponta da língua circulando o clitóris, meus seios movendo-se ávidos, a expectativa ondulando. Ergui o quadril, servindo-o na boca, doando-me sem discrição ou pudor. Ele provou-me, mergulhou sua língua, a sensação gélida do piercing me fez estremecer e perder o equilíbrio.
Théo soltou meus tornozelos e as mãos se apossaram da minha bunda, erguendo-a, ao mesmo tempo que os dedos afundaram em minha carne. Seus lábios e língua não se interromperam, ele continuo chupando-me e furtando-me gemidos e espasmos.
Quando o primeiro orgasmo me atingiu, senti a umidade escorrer por minhas nádegas, sua língua deslizou sobre meu ânus, girando, incitando, beijando. Era a primeira vez que era tocada ali e meu prazer parecia ter se expandido ao infinito. Um segundo orgasmo sobreveio e ele levou a língua acima, refazendo o caminho e sorvendo meu gozo.
— Caramba — sussurrei, ofegante, afastando alguns fios de cabelo que grudaram em minha face no momento que abandonei os cotovelos e desabei no colchão. — Quem precisa que o cara ligue no dia seguinte — arfei — se ele te comer desse jeito?
Ele riu e deu um selinho na minha boceta antes de levantar, foi fofo, a coisa mais louca é que senti um calor se concentrando nas maçãs do meu rosto. O cara me arregaçou e chupou inteira, ok. O mesmo cara me deu um selinho íntimo e fiquei sem jeito, eu precisava me tratar.
— Vou buscar água para você.
— Obrigada. — Meus olhos deram uma secada nele.
Era impossível não ficar minimamente orgulhosa diante da sua ereção brutal, eu era responsável por provocá-la e, puta merda... O que era aquilo? Sem parâmetros para comentários, não sabia que um pau podia ser tão lindo. Os piercings era um diferencial e tanto. Para ser honesta, sua beleza estava além dos adereços. Era um pau imponente, tinha uma curva sutil para esquerda, algumas veias saltadas, grande e grosso, a glande rosada e liso até as bolas. A quais deuses eu deveria ajoelhar e agradecer pelo equívoco de um metro e oitenta e oito que tinha me proporcionado o melhor orgasmo da vida? E ele só tinha me chupado!
Théo retornou da cozinha e eu permanecia deitada, a única mudança de posição foi ter abaixado as pernas. Ele parou na porta, me olhando.
— O quê? — inquiri e se limitou a negar com um pequeno movimento de cabeça.
Adentrou o cômodo e sentou-se na cama, encaixou a mão livre embaixo do meu pescoço, segurando meu rosto e beijou-me por um átimo.
— Se estiver satisfeita e quiser parar, tudo bem.
— Você não ficaria puto de ódio se te deixasse de pau duro depois de me fazer gozar duas vezes? — Reposicionei-me, sentando-me e aceitando a água que ele me trouxe.
— Eu sairia daqui e bateria uma[1] forte pensando em você. Não ficaria com raiva, você pode parar quando quiser.
— Eu quero te chupar, quero sentar no seu pau e fodê-lo até que nenhum de nós possa mover um dedo mindinho. — Estiquei-me, coloquei o copo no criado-mudo e voltei a ficar de frente para ele. — Se você desperdiçar uma gota de porra, vou ficar muito brava, porque quero tomá-la em minha boca do mesmo jeito que tomou de mim.
— Como resisto a você? — Ele me abraçou e desabamos na cama, seu corpo cobrindo-me.
— Faz como eu — o empurrei e me coloquei por cima —, não resiste.
A mão firme se abriu na minha nuca e a língua invadiu minha boca, escorreguei nele, deitando-me no seu corpo quente, apreciando o esmagar dos meus seios em seu tórax, o roçar do seu pau nas minhas coxas. Mordi seu lábio, pondo uma pausa ao beijo, ele gemeu e resvalou uma mão entre minhas pernas, dois dedos afundaram em minha boceta, iniciando um vaivém lento.
Rebolei empalada nos seus dedos e engatinhei para trás, afundando-os em mim enquanto percorria suas tatuagens com beijos. Descendo, arranhando seu abdômen, fodendo seus dedos. Eu não queria deixá-los sair, mas o desejo de colocar seu pau na boca tornara-se uma necessidade. Impulsionei-me para cima, para que seus dedos deslizassem para fora, contudo, a mão que estava em minha cintura impediu-me.
— Nada disso, Bruxinha. — Sorrio com malícia. — Vira para cá e senta na minha cara.
Rodopiei e pus minhas pernas ao lado da sua cabeça. Ele apenas manteve os dedos imóveis até que estivesse onde queria e recobrou os movimentos, acrescentando a língua. Nem me esforcei para suprimir os gemidos. Segurei na base do seu pau.
— Você me dirá onde está a tatuagem ou terei que revirá-lo do avesso?
— Abaixo do piercing no frênulo.
Inclinei minha cabeça e olhei a parte posterior da ereção veemente que não parava de latejar entre meus dedos.
Foda-me! — Olhei para ele, girando minha língua na sua glande. — É tudo o que quero esta noite.
 
 
 
[1] Referência a masturbação,

 

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6. Théo
 
Meu primeiro orgasmo da noite foi na sua boca e ela mamou e lambeu até que a única prova fosse minha expressão de êxtase. Kiara jogou-se na cama. Eu me movi, invertendo minha posição para que ficássemos virados do mesmo lado, e a puxei para mim, beijando-a. Ela ainda tinha o gosto da minha porra na boca, e meu rosto, não apenas meus lábios, estava lambuzado com seu gozo, o que não foi um entrave para que correspondesse com desejo.
O beijo se avolumou, nossas mãos entraram na dança, nos abraçamos, apertamos, acariciamos, e quando minha ereção se apertou entre nossos corpos, ela me empurrou, pedindo que pegasse a camisinha. Levantei para buscá-la na carteira e tranquei a porta do quarto antes de retornar para cama. Eu pretendia levar aquilo madrugada a dentro e ser interrompido pelo meu irmão não fazia parte do plano.
— Como você prefere?
— Como você quer? — Ela me devolveu a pergunta.
— Quero que seja gostoso para você. — Ajoelhei na cama e debrucei-me, acariciando seu cabelo. —  Por ser sua primeira experiência com os piercings, pode sentir algum desconforto. Estranhamento, na verdade.
— Você é sempre tão atencioso? — Seus lábios tremeram e elas os comprimiu, olhando-me profundamente.
— Não sei te responder.
— Vou fingir que é só comigo. — Sorriu e abraçou-me. — Gosto do azul-esverdeado dos seus olhos.
Nunca lhe perguntei, acho que porque não queria que ela desconstruísse minha ilusão, interpretei o comentário aleatório sobre meus olhos como um pedido para que pudesse estar olhando para eles quando a penetrasse pela primeira vez. Não sei se era sua intenção ou o meu desejo de mergulhar no seu corpo vendo a paixão queimar em sua íris.
Acomodei-me entre suas pernas, deslizando em sua boceta. Ela escorregou as mãos por minhas costas, arranhando-me e convidando-me a ir mais fundo. Sua boca entreabriu e uma interjeição de prazer ganhou meus ouvidos. Kiara cruzou os pés na minha bunda e, sentindo que estava confortável, empurrei-me contra sua pélvis, furtando-lhe uma sinfonia de gemidos.
O calor espalhou-se por meu corpo no ir e vir dentro dela, sentindo seus braços e pernas me abraçarem, e os lábios buscarem pelos meus. Caí rendido no lago negro dos seus olhos, embevecido por ela. Eu me movia guiado pelas chamas de desejo que brilhavam em sua face. Rápido, forte, implacável. Sua bunda esmurrava minhas coxas e eu sabia que o piercing pubic estimulava seu clitóris a cada investida, levando-a para tão perto da borda que poderia fazê-la gozar quando quisesse.
Pensei que fosse capaz de deixá-la mais ansiosa para chegar ao ápice, no entanto, eu queria dar-lhe tudo o que tinha, como me pediu horas antes, e isso inclua quantos orgasmos fosse possível. Beijei sua boca e deixei um rastro de mordidas até os seios, então segurei suas coxas, fiquei de joelhos e as posicionei nos meus ombros, retomando o ritmo. Kiara prendeu o lençol entre os dedos e arqueou a coluna, incitando-me.
Curvei-me poucos centímetros para frente, dobrando suas pernas sobre seu corpo e sentindo-a alargando-se para abrigar todo meu pau, o mais fundo que conseguia ir. A pele macia e suculenta das suas nádegas apertou-se contra os dois piercings no princípio das minhas bolas e ela rebolou, aumentando o atrito.
A profundidade e ritmo dos meus movimentos, intensificou o estímulo no seu clitóris e a bruxinha gritou sendo consumida por uma sequência de orgasmos que nos encharcou, produzindo o delicioso som de corpos molhados numa dança erótica. Só não era mais afrodisíaco do que ouvir sua respiração arfante e ver o rosto angelical dominado pela devassidão.
Abaixei suas pernas e deitei-me sobre seu corpo: — Se você pudesse se ver agora, saberia que não há nada mais sexy — murmurei, mordiscando sua orelha e desacelerando as investidas.
— Não se engane, tenho a visão mais sexy nessa cama. — Kiara me beijou e nos fez ficar de lado. — E ela está prestes a ficar ainda melhor.
Ela mordeu meu lábio e deslocou-se, pondo-se de joelhos e longe demais do meu pau. Empurrou-me para que ficasse de costas e subiu em mim, as pernas ladeando-me e a boca se apossando da minha. Com uma mão segurei sua bunda, apertando-a com força, e com a outra subi por suas pernas, acariciando-a.
Corri meus dedos entre os grandes lábios, massageando-os, lentamente ela foi se abaixando, logo estava roçando minha ereção e no segundo seguinte sentou-se de uma só vez. Ela não foi paciente, impôs um vaivém célere e não demorou para que mais do seu gozo me inundasse, espalhando-se por minha virilha. Foi o meu limite.
Cravei os dedos nos seus quadris e urrei, gozando com ela remexendo-se para frente e para trás em meu colo, ordenhando-me numa fúria violenta. Ergui um braço, enredando os dedos entre seu cabelo e, assim que só restaram os espasmos, a puxei para mim. Seu corpo se acomodou no meu e nossos lábios se encostaram.
— Você tinha razão sobre ficar ainda melhor — entreolhamo-nos —, mas a melhor visão continua sendo minha.

 

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7. Kiara
 
Nós não ouvimos quando Tom e Jayden chegaram, estávamos ocupados para prestar atenção aos ruídos externos e esquecemos que podíamos ser ouvidos, o que só me dei conta ao levantar na ponta dos pés no dia seguinte e ser surpreendida com um bilhete embaixo da porta.
“Pelo que percebemos sua madrugada foi agitada e não vamos perdoá-la se for embora antes do café da manhã. Beijos, T&J”.
— Merda.
— Você estava fugindo?
Girei nos calcanhares e sorri constrangida com o flagra. Théo estava com o lençol jogado sobre as pernas, o tórax nu, o cabelo bagunçado e um sorriso provocante estampado no rosto.
— Fracassei duas vezes. — Balancei o bilhete.
— Era meio óbvio que eles tivessem nos escutado.
— Poderia ser qualquer garota.
— Não traria mais ninguém para a casa do meu irmão. — Sentou-se, recostando-se na cabeceira. — Por que estava escapando sem se despedir?
— Uma noite. Sem ligações.
— Se me lembro direito, você me deve um jantar. — Ele piscou. — Podemos substituí-lo pelo café da manhã. Tome um banho rápido, vou em seguida e saímos antes que eles acordem.
— Terá que me levar em casa para trocar de roupa, não irei a qualquer lugar, em plena luz do dia, com aquela fantasia.
— Não reclamarei se o café da manhã for servido na sua cama.
— Não preciso ter esse tipo de recordação — aponto para ele — nas minhas noites solitárias, seria demasiado torturante.
— Justo. — Ele sorriu alto. — Vá para o banho porque estou tentado a trazê-la de volta para esta cama.
— Se quiser vir... — Dei de ombros e saí do quarto.
Eu nem deveria ter feito o convite, mas fiz e Théo adentrou o banheiro quando despia a camiseta. Ele se livrou da boxer, me içou, sentando-me no granito da pia e buscou minha boca. Ouvi a corrediça da gaveta, o ruído da embalagem metálica sendo puxada. Mordi seu lábio e espalmei a mão no seu peito, impondo um espaço entre nós. Peguei o pacote de camisinha que ele segurava, rasguei a embalagem e o deslizei em sua ereção, apressada para senti-lo me preencher.
— E você ia embora sem me deixar estar aqui outra vez — murmurou enquanto nossos corpos se tornavam um.
Após minutos de investidas furiosas, gozamos juntos, esmagando nossas bocas para abafar os sons que rolavam por nossos lábios. Sôfregos, cambaleantes, embriagados de prazer.
Mais que depressa, tomamos uma ducha, vestimo-nos e saímos de casa. Entramos na picape e ambos os celulares vibraram, alertando-nos que recebemos uma mensagem.
“Conte para ele”.
— Tom? — Abaixei o visor do celular.
— É. — Ele me estendeu o aparelho e li a mensagem: “conte para ela”.
— Contar o quê?
— Você lembra que o Tom se ausentou por um período no último ano?
— Sim, ele ficou transtornado quando recebeu a ligação dos seus pais, retornou dias depois, disse que tudo ficaria bem e que não queria pensar no que poderia ter acontecido.
— Eu sofri um acidente. Estava num bar, aconteceu uma briga que envolvia alguns amigos e alguém estava armado. Levei um tiro na cabeça, o projétil não foi removido porque poderia causar danos severos.
— Você... Você não está morrendo ou algo assim, né?
— Não. — Ele meneou a cabeça. — Tenho amnésia anterógrada, Kiara. Eu posso aprender coisas novas, desenvolver habilidades procedimentais e implícitas, mas a memória explícita posterior ao trauma é limitada. Em vinte quatro horas não lembrarei de você, será como se nunca a tivesse conhecido.
— Será sempre assim?
— Os médicos não têm certeza.
— Não consigo mensurar o quanto é difícil para você.
— Nunca dei muita importância. Consigo fazer minhas coisas, não afeta meu desempenho cognitivo, tampouco físico, o trabalho que escolhi é no aqui e agora, então isso não era um problema.
— E agora é?
— Sim. — Ele apanhou minha mão. — Não quero esquecê-la, Bruxinha. Você é a garota para quem eu quero ligar no dia seguinte. Se você for paciente... Não moro tão distante, são menos de duas horas, posso vir sempre que tiver uma folga e talvez com sorte...
— Théo — mostrei a mensagem do Tom —, estou indo para Inglaterra em quatro dias. Fui selecionada para um projeto em Oxford, ficarei um ano longe.
— Um ano? — Ele soltou minha mão e acariciou meu rosto. — Está tudo pronto para a viagem? — Assenti. — Você tem algo para resolver antes de ir? — Movi a cabeça negando. — Fica comigo esses quatro dias?
— Não sei, Théo. O que faríamos nesse tempo?
— Tudo. Nada. Qualquer coisa que queira. Quero uma chance de guardá-la na minha memória quanto tempo for possível.
— Como isso funciona para você?
— Nesta madrugada não lembrarei como nos conhecemos ou porquê de chamá-la de Bruxinha, recordarei dos momentos que teremos ao longo destes dias por apenas vinte quatro horas, não quero perder tempo falando de como nos conhecemos quando posso viver mais um dia com você. Quando tiver partido, as memórias não mais existirão, contudo terei vivido o relacionamento mais intenso da minha vida. Sei que meu gesto é egoísta, porque no final é você que arcará com as lembranças desses dias e se por acaso sentir saudades, saberá que não é retribuída, porque eu não posso...
— Quieto! — Coloquei meus dedos sobre sua boca. — Você disse que não quer perder o pouco tempo que temos relembrando o ontem e eu não quero gastá-lo falando do amanhã. Temos quatro dias e exijo que eles sejam vividos ao extremo.
— Você está dizendo que topa? — Aquiesci. Ele se curvou na minha direção e beijou-me. — O que você quer fazer primeiro?
— Comer, estou morta de fome!
— Eu também. — Ele riu e me deu mais um beijo. — Qual seu endereço? — Desceu os olhos por minhas pernas. Eu tinha desistido de pôr a fantasia e vestido uma das suas camisetas com as botas. — Ou... Olhando de fora ninguém notará que está seminua por baixo da camiseta. Podemos parar num drive-thru da Starbucks e levamos o café da manhã.
— Para minha cama?
— Estava me referindo ao apartamento. — Fez uma expressão inocente. — E aí, Bruxinha? Como você quer fazer?
— Ficarei te devendo outra refeição, vamos para o drive-thru.
— Você pode me pagar com a sobremesa. — Ele pousou a mão na minha coxa e a deslizou para o meio das minhas pernas.
— Théo, dirige!
— Gosto de adrenalina, esqueceu?
O ronco do motor sobrepôs sua voz e nos deslocamos ao passo que seus dedos repuxavam minha calcinha para o lado. Recostei a cabeça no banco, fechei os olhos e afastei as pernas, dando-lhe mais espaço para tocar-me. O polegar pressionou meu clítoris e dois dedos me penetraram. Agarrei-me no assento e mordi o lábio para não gritar.
— Quero seus gemidos, Bruxinha. — Ele interrompeu a cadência dos dedos. — Se não, irei parar.
— Não! — Segurei seu braço, mantendo sua mão onde estava. — Por favor, Théo.
— Abra os olhos, Kiara — Recomeçou as carícias. Gemi e fiz o que pediu. — Veja quantos carros e pessoas têm ao nosso redor. — Mais gemidos. — Alguns podem estar começando a se perguntar o que está acontecendo, o porquê seus lábios estão entreabertos e sua cabeça está afundando no encosto, como se mal pudesse se controlar. — Virei meu rosto para ele, minha respiração acelerada era atropelada pelos gemidos que saiam sem pudor. — Nenhum deles tem certeza do que está havendo aqui, ninguém pode ver que você está gemendo porque estou a fodê-la com os dedos. — Meu corpo estremeceu com a força do orgasmo que me atingiu, resmunguei um palavrão ininteligível e ele me olhou de soslaio, sorridente. — E somente nós dois sabemos que tenho seu gozo escorrendo na minha mão.
 
 
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8. Théo
 
— Onde você dormiu? — A garota loira perguntou antes mesmo de abrir a porta. Ela parou ao me ver atrás da Kiara e arqueou uma sobrancelha, inquirindo a amiga. — Esse não é o Tom, é o irmão, né?
— Esse é o Théo. — Kiara entrou e fez um sinal para segui-la.
— Oi.
— Sou a Penélope, a amiga que quase morreu de preocupação por não ter notícias dessa vadia. Da próxima vez que sair com a Kiara, é bom que me avise ou esmagarei suas bolas.
— Fiquei sem sinal e depois meu celular descarregou, não vi até hoje de manhã. Não foi culpa do Théo.
— Não tenho certeza se não sou culpado.
— Aposto que é. — A garota olhou a bruxinha dos pés à cabeça e deu um sorriso que insinuava muitas coisas. — Feliz por eu ter te obrigado a ir na festa de Halloween? — Ela piscou para Kiara.
— Você e o Darci ficarão por aqui esse final de semana?
— Entendi a direta, vou acordá-lo e iremos para o apartamento dele. Pendurei sua bolsa no cabideiro.
— Obrigada, P. — Kiara adentrou um corredor. — Vem, Théo.
— Seja lá o que você fez, está dando certo. Ela nunca trouxe ninguém, nem mesmo o ex.
— Caso ela desapareça pelos próximos dias, prometo que estará segura.
— Apenas não seja escroto com ela, Kiara teve sua cota de merdas.
— Théo, vou começar a comer sem você!
— É melhor ir antes que ela devore tudo.
— Isso é muito possível. — A loira riu e agitou a mão no ar, me mandando ir.
A porta do quarto estava aberta, Kiara tinha despido as botas e segurava um croque monsieur, sentada com as pernas cruzadas sobre a cama. Eu me dei um minuto para admirá-la. Ela levantou, pegou a bandeja de café que eu segurava na mão esquerda e me deu um selinho.
— O banheiro é ao lado.
— Volto logo.
Há sete meses minha vida se reduziu a uma sequência de curtas, acordava consciente que não existiria um depois, o que fizesse, as pessoas que conhecia, elas só existiam dentro de um intervalo de vinte e quatro horas. Tive sorte, foi o que os médicos disseram. Não discordava de todo, a sensação da bala dentro da minha cabeça era um lembrete que a vida é só um estalo. No meu caso, ela sequer podia ser pensada em anos, eu não os tinha, e por isso escolhi viver para o que me restou: meu sonho.
Se pudesse cumprir com minhas atribuições, não existia impedimentos legais que me excluíssem do Corpo de Bombeiros, eu só precisava ser aprovado no treinamento e era para isso que vivia desde o acidente. Estudar e treinar e estudar de novo. Criei estratégias, notas escritas sobre quais conteúdos precisava me aprofundar, eu absorvia aquilo que estudava, só não lembrava de fazê-lo.
Tinha um amigo que me ajudava, o mesmo com quem eu dividia o apartamento e meu parceiro de saídas, para não esbarrar na mesma garota de outra noite. Nada me deixava mais irritado do que ser obrigado a me explicar. Era uma droga não conseguir lembrar e ter que falar a respeito era o que menos queria, porque as pessoas sempre faziam perguntas demais e me faziam sentir uma aberração. Eu estava conformado com a porcaria da minha vida sendo segmentada em uma sequência de hojes. Até ela aparecer.
— Tranca a porta. — Pediu quando retornei ao quarto.
— Pensei que íamos tomar o café da manhã. — Passei o trinco e removi a jaqueta, colocando-a sobre uma escrivaninha.
— Nós vamos. É que estou confortável — puxou o tecido da camiseta para mostrar do que falava ­— e acho que você deveria ficar também.
— Estou de acordo. — Chutei os sapatos e desci a bermuda, puxando as meias junto. — É o bastante?
— Não me incomodo se despir a camiseta.
—  Nem eu. — A puxei pela gola, jogando-a para trás. Parei ao lado da cama. Kiara ficou de joelhos e ergueu a camiseta, atirando-a no chão. — Perfeito. — Envolvi sua cintura e inclinei-me para alcançar seus seios, ocupando-me de beijá-los. — Logo mais continuamos ­— depositei um beijo na curva do seu pescoço —, não quero que me acuse de matá-la de fome.
Terminávamos o café quando Penélope nos gritou, despedindo-se. Aninhamo-nos na cama pelas horas seguintes, entre amassos e conversa. Tomamos banho juntos, pedimos um delivery e comemos dessa vez na cozinha. Ela novamente vestida com minha camiseta e eu apenas com a bermuda. Assistimos a uma sessão de filmes enroscados no sofá da sala e depois voltamos para o quarto. Não fizemos sexo desde que chegamos ao seu apartamento e sentia que aqueles momentos eram os mais íntimos que tive em vinte anos.
— Qual seu livro favorito?
— Qual é, Théo?! — Esmurrou meu peito. — Essa pergunta não vale.
— Claro que vale. — A abracei e beijei sua têmpora. — Aquele livro que você nunca irá esquecer.
— Não sei, não consigo escolher um. São tantos.
— Diga um, o primeiro que pensou.
Frankenstein.
— Por quê?
— Escrito por uma jovem de dezoito anos e precursor da literatura de terror e ficção científica. Uma história que discute as mais profundas angústias humanas, não haverá um dia onde as reflexões propostas por Mary Shelley estarão ultrapassadas.
— Nunca li Frankenstein, o farei em breve, prometo. Colocarei um lembrete no celular.
— Você gosta de ler?
— Não tanto quanto o Tom. Meu livro favorito é de contos e poemas de Edgar Allan Poe. Gosto da forma como ele expressa a condição humana em sua face mais sombria.
— Você fica mais interessante a cada minuto.
— E eu pensando que a tatuagem no pau era minha grande cartada. — Ela riu e recostou a cabeça no meu peito. — Quer sair? Jantar fora?
— Estou bem aqui. — Traçou o dedo indicador nas linhas do meu bíceps. — Théo, obrigada por hoje.
— Eu que deveria agradecer.
— Para demonstrar sua gratidão, você pode preparar nosso jantar.
— Com prazer.
— Você não vai incendiar a cozinha, né?
— Cozinho melhor que o Tom, se quer saber.
— Ah não, aí já é demais! O Cavalheiro Tatuado precisa ter um ponto fraco, todos heróis têm.
— Ele tem suas memórias deletadas a cada vinte e quatro horas, Bruxinha. — Encostei os lábios no seu cabelo e inspirei fundo. — Eu quero tanto lembrar desses dias.
— Não vamos entrar nessa vibe, prometemos que viveríamos o momento sem pensar no depois. — Ela se sentou e me fitou séria. — Levanta esse traseiro, quero ver se esse papo de cozinhar bem é verdade ou conversa fiada.
— Tenho uma mochila no carro, com algumas roupas — me levantei da cama ­—, posso ir buscar ou pretende me expulsar antes da meia-noite?
— Duas perguntas: o porquê ela ainda não está aqui e quando você pôs uma mochila no carro que eu não vi?
— Ela fica lá o tempo todo, têm roupas, documentos, um laudo descrevendo a localização do projétil, os exames que estou impedido de fazer, e um bloco de notas para coisas rápidas, como endereço de onde vou ficar. Eu não bebo e sou muito cuidadoso em estabelecer horários exatamente para que não aconteça de acordar num quarto de motel, numa cidade qualquer, e sem fazer a mínima ideia de onde estou. No entanto, não estou livre de um sofrer um assalto, levar uma porrada na cabeça ou sei lá o quê.
Ela acariciou minha barba e moveu os dedos devagar, espalhando-os no meu cabelo: — Você tem dores?
— Eu posso senti-lo, mas não dói.
— Admiro a forma como dribla as adversidades. — Kiara ficou na ponta dos pés e me beijou com ternura. — Você é um cara incrível.

 

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9. Kiara
 
— As definições de homem para casar foram atualizadas. — Dou outra garfada. — Puta merda! É a melhor quiche que comi na vida.
— Nem é minha melhor receita.
— Para de se exibir! Até a maldita salada está divina.
Ele riu numa provocação gostosa e se eu não estivesse tendo um orgasmo gastronômico o atacaria na mesa da cozinha mesmo, mas tínhamos tempo e estava amando provar de todos os prazeres que ele podia me oferecer.
Théo era o pacote completo. Talvez tenha escolhido errado quando aceitei viver um relacionamento de quatro dias. Eu pensei que não tinha nada a perder, o que era verdade naquele momento, apenas não imaginei que no final daqueles dias isso teria mudado. A cada conversa, riso, carinho, eu sentia que a despedida seria dolorosa na mesma proporção que os minutos com ele eram de uma magnitude que desconhecia.
— Você cozinhou, eu arrumo — disse após o jantar.
— Você pode me ajudar. — Ele pegou a louça e seguiu para a pia.
— Théo, me deixa fazer.
— Eu lavo e você enxuga. — Apontou para a toalha.
— Não é justo, você fez tudo sozinho.
— A vida não é justa, Bruxinha. — Ele agarrou minha cintura e me puxou. — Em compensação, ela pode ser muito prazerosa. — Fez uma trilha de beijos no meu pescoço. — O que acha de fazermos isso juntos, assim terminamos mais rápido, depois você escolhe uma música para dançarmos, porque em algumas horas não lembrarei de como nos conhecemos e não quero esquecer o que dançar com você me fez sentir.
— Você faz com que me apaixonar pareça inevitável.
— Pode culpar meu cérebro defeituoso se não acreditar em amor à primeira vista, me apaixonei antes de conhecê-la.
— Théo, nós não...
— Em um ano, quando tiver voltado da Inglaterra, prometo reencontrá-la. — Ele escovou meus lábios, os braços se fecharam em torno da minha cintura, rendendo-me. — Ainda que tiver esquecido tudo o que vivemos, do segundo que a vi pela primeira vez até nossa despedida no aeroporto, eu sei que bastará vê-la para que os sentimentos que tenho hoje regressem com a mesma intensidade. E se você ainda puder se apaixonar por mim, farei qualquer coisa para que possamos ficar juntos.
— Se você não me encontrar, eu o encontrarei. — Cruzei minhas mãos no seu pescoço.
— Dança comigo, Bruxinha. — Ele beijou meu ombro. — A gente cuida da louça amanhã.
— Com uma condição.
— Quantas quiser.
— Uma me basta. — Aproximei minha boca do seu ouvido. — Que a última dança seja na horizontal.
— A última, a penúltima, a antepenúltima —Théo escorregou as mãos para meus quadris e me impulsionou para seu colo — e quantas mais você desejar.
Ele me pôs no chão quando chegamos ao quarto. Busquei pelo celular e coloquei uma das músicas que dançamos na festa. Cantarolei baixinho, deixando a melodia me levar. Permaneci de costas para onde ele estava, fechei os olhos, meus dedos se enredaram em meu cabelo, bagunçando-o.
 
I'm feeling sexy and free
Like glitter's raining on me
You're like a shot of pure gold
I think I'm 'bout to explode[1]
 
Ele se aproximou, os lábios pousaram na curva do meu pescoço e as mãos contornaram minhas coxas, subindo lentamente para os meus quadris, acompanhando meus movimentos.
 
Rock my world into the sunlight
Make this dream the best I've ever known[2]
 
Girei, escorando meus braços nos seus ombros, e abri os olhos. As íris azuis-esverdeadas refletiam meu desejo. Théo prendeu-me pela cintura e reivindicou um beijo, aquele do qual fugi no Halloween. Entreabri os lábios e enovelei sua língua em carícias que reclamavam mais e mais de nós dois.
 
We can do this all night
Damn, this love is skin tight
Baby, come on[3]
 
— Porra! — rosnou, espalhando os dedos da mão direita entre os fios do meu cabelo.
— Foda-me. — Ofeguei, abaixando minhas mãos para desabotoar sua bermuda.
Assim que sua bermuda caiu, ele me levantou em um abraço e me levou para cama. Minha camiseta foi arrancada no instante seguinte e meus seios tornaram-se alvos de chupões. Entregue a sua vontade, eu arfava e gemia, incapaz de coordenar qualquer ação. Ele se livrou da boxer. Arqueei o quadril ao sentir sua ereção e a sensação do piercing resvalando sobre a renda provocou arrepios na minha coluna. Mordeu meu baixo ventre, prendeu os dedos nas laterais da calcinha e a arrastou enquanto sua boca beijava-me entre as pernas.
Eu ainda me contorcia em resposta ao raspar da sua barba e aos rastros de umidade deixados por sua língua quando ele voltou jogando a camisinha no meu abdômen e sentou-se, encaixando suas coxas sob as minhas. Segurando na base do seu pau, ele o friccionou na minha boceta, dando-me umas palmadinhas, fortes o suficiente para que meu corpo se projetasse na sua direção, suplicante por mais. Estava para implorar que me comesse e não contive o suspiro extasiado ao vê-lo rasgar a embalagem e vestir o preservativo.
O deslizar foi lento e senti como se pegasse fogo a cada centímetro a ocupar-me. Os segundos que ele se moveu num ondular moroso foram o bastante para que um orgasmo se formasse em expectativa ao seu próximo movimento e... Puta que pariu!
Théo pôs as mãos em meus joelhos, sustentando-se em minhas pernas, o ângulo permitindo-o ir mais fundo. Ele deslizou uma mão para minha bunda e espalmou a outra na cama, seu corpo debruçou-se sobre o meu e seus lábios sugaram meu mamilo. Frisei seu cabelo, puxando-os de leve. Ele se esgueirou pelo meu busto e sua boca investiu sobre a minha. A única distância entre nossos corpos era do vaivém que a cada estocada parecia menor em razão do ritmo feroz.
Eu gemi nos seus lábios, apertando minhas coxas nos seus quadris, arranhando-o com unhas e dentes, derramando-me ao redor do seu pau. Ele esperou que o último espasmo deixasse meu corpo e deslizou para fora — resmunguei, o que o fez rir —, para em seguida me dar um banho de língua que reiniciou os tremores em minhas pernas. Ele lambeu. Chupou. Mordeu. E fodeu-me com a língua antes de me virar de bruços e preencher-me outra vez, calando o latejar dolorido que sua ausência deixou.
Uma mão estava aberta na minha lombar, pressionando com força, dando o apoio necessário para que mantivesse o ir e vir enquanto sua pélvis surrava minha bunda. Os piercings causavam um atrito interno, disseminando impulsos nervosos que seguiam o fluxo da penetração.
Ele colocou ambas as mãos na cama, alongando-se sobre minhas costas, os lábios tocaram meu cabelo e a respiração quente atingiu minha nuca. Deslocou a mão direita para meu pescoço e puxou minha cabeça para trás, buscando minha boca.
Apoiei-me nos cotovelos e sua língua mergulhou entre meus lábios em meio a gemidos. O serpear do seu corpo de encontro ao meu, a paixão latente que transbordava em suor, cobrindo nossas peles, tudo me levava a insânia. Rompi o beijo e desabei no colchão. Théo recostou sua testa em meu ombro e prendeu meu cabelo entre os dedos num aperto vigoroso. Ele grunhiu. Senti o pulsar acelerado da sua ereção e a umidade alastrou-se entre minhas pernas. A mão livre desceu para meu quadril e agarrou-me com ímpeto, mais um empuxo e nós dois gememos, rendidos pelo tesão.
 
[1] Estou me sentindo sexy e livre/ Como se chovesse glitter sobre mim/ Você é como uma dose de ouro puro/ Eu acho que vou explodir (Jessie J, Domino).
[2] Agite meu mundo até o sol brilhar/ Faça desse sonho o melhor que eu já tive (Jessie J, Domino).
[3] Podemos fazer isso a noite toda/ Porra, esse amor é bem apertado/ Baby, vamos lá (Jessie J, Domino).

 

 
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10. Théo

 

 
— Posso entrar?
— Espera, estou nua! — Kiara saltou por cima das minhas pernas e desceu da cama, indo para o roupeiro.
— Por que o Thomás tem a chave do seu apartamento?
— Melhor amigo, contato de emergência e cunhado da colega de quarto dela. Está bom ou quer mais? — Meu irmão provocou-me. — Théo, vista-se também, Jayden está na sala.
— Ele te vê nu todos os dias, Tom, não acho que há algo de novo aqui.
— Não sou um gibi e meu cacete não é cheio de argolas. Vista-se!
— Nunca pensei que fosse ciumento, Tom. — Kiara tinha vestido uma calcinha e subia um vestido por suas pernas. — Fecha pra mim — pediu, aproximando-se da cama.
— Não é ciúme, só não quero que o Jayden tenha ideias que envolvam perfurar meu corpo com agulhas.
Levantei, subi o zíper que se iniciava no cóccix e levei minhas mãos aos seus seios, massageando-os. Kiara se virou e me deu um beijo, abracei sua bunda e exigi sua língua em minha boca.
— Estou entrando!
— Théo — a bruxinha sussurrou, espalmando a mão no meu tórax, e girou, me deixando nas suas costas. — Pode entrar, Tom.
— Bom dia. — Meu irmão passou o olho nas roupas espalhadas no chão. — Vocês pelo menos saíram do quarto para comer?
— Não hoje, porque estamos levantando agora.
— Se eu não tivesse vindo ver como estavam — Tom catou uma bermuda pendurada na cadeira da escrivaninha e jogou na minha cara —, nem teriam a decência de me ligar, né?
— Eu não lembrava. — Vesti a bermuda.
— Eu supus que você deduziria que o Théo estava comigo, pensei em avisar mesmo assim, aí seu irmão me distraiu e esqueci.
— Vocês leram minha mensagem e conversaram a respeito?
— Que mensagem? Sobre o que... — Franzi o cenho.
— Minha viagem para Inglaterra e sua amnésia. — Kiara entrelaçou nossas mãos. — Sim, falamos sobre tudo.
— Ótimo! Façam o que tiver que fazer e me encontrem na cozinha. Nós trouxemos o almoço. — Meu irmão virou-se em direção a porta e puxei Kiara, voltando a beijá-la. — Eu quis dizer escovar os dentes, lavar as mãos, tomar banho, esse tipo de coisa, Théo.
— Estamos indo, Thomás. — Sorri, escorregando meus lábios para o busto de Kiara. — Depois de uma rapidinha — sussurrei para que somente ela me ouvisse.
— Só porque nos restam apenas três dias. — Ela Inclinou o pescoço e deslizou os dedos no meu cabelo.
— Vamos para o banheiro, não quero que o timing perfeito do meu irmão nos atrapalhe uma segunda vez.
Eu podia me acostumar com sua presença constante nos meus dias. Nos conectávamos de um jeito inexplicável, fosse na cama ou fora dela. O sexo era devasso, a comunicação fácil, as ideias se afinavam. Ela era o que buscava sem saber. Não poderia perdê-la para a droga da minha memória, não aceitaria ser derrotado sem lutar.
Almoçamos com meu irmão e cunhado, e fomos dar uma volta pela cidade. Era a primeira vez que saía de mãos dadas com uma garota, abraçando-a e beijando-a enquanto caminhávamos sem nada para fazer, apenas curtindo estar juntos. Gostei que nos olhassem e vissem um casal, e de como ela agiu sem reservas mesmo estando em público.
— Nunca tinha passado pela minha cabeça ver vocês juntos.
Kiara olhou para trás e deu língua para o Tom. Eu soltei sua mão e passei meu braço em volta do seu quadril, trazendo-a para mim. Encostei meus lábios no seu cabelo e fitei meu irmão, que vinha alguns passos atrás. Assim como nós, ele e o namorado estavam com as mãos entrelaçadas. Eles tinham quase a mesma altura, Jayden era cinco anos mais velho, loiro de olhos castanhos, usava o cabelo raspado e era Primeiro-Tenente da Força Aérea.
— Por que não?
— Acho que o problema é que ele nunca te imaginou com alguém, Théo. — Meu cunhado abraçou meu irmão, passando um dos braços sobre seu ombro e unindo as mãos em frente ao tórax. — Admita que seus instintos protetores estão em alerta, amor.
— Se não tivesse visto o Fera cair de quatro pela Amber em um piscar de olhos, não teria deixado o Théo chegar a menos de cem metros da Kiara.
— Obrigada por sempre cuidar de mim. — Ela estirou o braço e afagou a mão do Thomás. — Não digo muito isso, mas eu te amo pra cacete.
— Estou descobrindo que sou ciumento pra caralho. — Beijei o ombro da Kiara. — Ainda bem que logo vou esquecer essa merda.
— Você está com ciúmes de mim? — Ela girou o corpo e escorregou as mãos no meu pescoço. — Por que eu disse que amo seu irmão?
— Muito. — Rocei meu nariz na curva do seu pescoço e sussurrei ao pé do seu ouvido: — Acho que você não entende o quanto o que estamos fazendo significa. Eu nunca fiz nada parecido, Kiara. Eu nunca quis nada assim. Depois do acidente tive certeza que não chegaria o dia em que fosse desejar ter algo além de sexo. Por que eu ia querer mais logo quando a transitoriedade passou a definir meus dias? E só o que me pergunto agora é o porquê não te conheci antes.
— Ei. — Ela encostou nossas testas. — Alerta de spoiler — me deu um selinho —, a Bruxinha se apaixonou pelo Cavalheiro Tatuado.
Movi minha mão para sua nuca e a beijei. Ouvi o som de risos e segundos depois confirmei minha suspeita, Thomás nos fotografou e enviou as imagens no grupo com nossos irmãos.
— Maria quer saber se é cedo para falar em sobrinhos. — A voz do Thomás foi seguida pela gargalhada do Jayden. Mostrei o dedo médio para eles. — Acho que isso responde. Lamento, irmã, teremos que esperar alguns anos.
 
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11. Kiara

 

 
— Estamos te entediando, Bruxinha? — Théo massageava meus pés.
— Não.
Nós estávamos na sala, a TV ligada em um canal de esportes. Eu tinha o tronco apoiado no braço do sofá e minhas pernas no colo do Théo. Espalhados no tapete, Thomás estava com a cabeça no colo de Jayden, ambos tomavam algumas cervejas. Eu os acompanhei numa garrafa, Théo não ingeria bebidas alcoólicas. Na mesa de centro muitas caixas de pizza com as poucas fatias que restaram.
— Você está séria.
— Estou trabalhando numa ideia. — Desviei os olhos do notebook e flexionei minha perna. — Pode continuar assistindo ao jogo — arrastei meu pé, esfregando-o de leve sobre seu pau —, por enquanto.
Thomás deu uma risada baixa.
— Presta atenção no jogo, Tom! — Arremessei uma almofada nele.
— Como você sabe se não ri de algo que aconteceu no jogo?
— Porque te conheço.
— Você não me julgaria se soubesse o quanto o Théo perturba o Fera por causa da Amber. Ele chegou ao ponto de dar em cima dela, descaradamente, só para fazê-lo confessar que estava apaixonado.
— Vocês dois são terríveis!
— Esse é o apelido carinhoso que a irmã colocou neles. — Jayden acariciou o cabelo do Thomás. — Vocês sãos irmãos tão terríveis quanto cúmplices e isso só me faz amá-lo mais. — Dobrou o corpo para frente e o beijou.
— Foi divertido fazer ciúmes no Fera.
— Divertido até o momento que ele quis te meter a porrada, né? — Thomás gargalhou. — Por que porra impedi?
— Porque ele estava espumando de raiva, no mínimo, eu sairia da briga para o pronto socorro e nossa mãe te colocaria de castigo por não ter nos separado.
— Ah é, foi isso. — Thomás tomou um gole da cerveja. — Sua sorte é que o Fera nem de brincadeira olharia para outra garota.
— Ela deve ser impressionante.
— É sim — os três concordaram.
— Tanto quanto você, Bruxinha — Théo tirou o notebook do meu colo, o colocou no chão e deitou a cabeça sobre meus seios.
— K, você é minha convidada para o próximo encontro da família Allencar.
— Sua convidada? Quando ela for apresentada a família, será como minha namorada. — Engoli alto. — Descobrirei como não a esquecer e aí...
— Não preciso que lembre de ontem — alisei seu cabelo — se me fizer sentir assim todos os dias.
— Se você perder essa garota, quem vai te bater sou eu, Théo.
— Jay, respeite a fila! O primeiro serei eu. — Thomás sentou-se. — Está na cara que isso aí vai muito além de sexo... Como vocês farão com a Kiara morando em outro país?
— Não há o que fazer nesse sentido, Tom. Eu preciso descobrir como fazer isso funcionar... Sei que a longo prazo é frustrante lidar com meus esquecimentos e não quero que comecemos assim, não quero estar longe quando as coisas estiverem difíceis. Tenho um ano para aprender como fazer dar certo. Ela tem um ano para conhecer outra cultura, pessoas, paixões, um ano para decidir se esses dias foram o bastante para que ela me queira também nos dias ruins, porque eles virão. Esquecerei coisas bobas, o porquê discutimos ou algo que ela me disse repetidas vezes e que prometi que faria. Em um ano a gente vê o que faz, por agora isso termina quando nos despedimos no aeroporto.
— Não sei te soco por colocar essa merda de amnésia antes do que você quer ou se te parabenizo pela sensatez, porque entendo sua preocupação e concordo que a Kiara merece viver essa experiência em Oxford sem travas.
— Prometemos que não íamos ficar falando sobre o que não podemos controlar, fim do assunto. —  Dei um tapa na bunda do Théo. — Voltem para o jogo, estou trabalhando em algo importante. — Olhei para o Thomás. — Passa meu notebook para cá.
— Conselho de irmão, não discuta quando ela começa a dar ordens.
— Não mesmo, nunca! — Jay concordou com o Thomás.
Théo deu um beijo no meu busto e endireitou-se, voltando a posição anterior. Ele apertou minha coxa e deslizou as mãos por minhas panturrilhas até meus pés, recomeçando a massagem. Eu sorri para ele em agradecimento e voltei-me para o notebook que Thomás colocou em meu colo.
Nós ficamos assim por um longo tempo, era por volta de meia-noite quando Thomás e Jayden foram embora. Desliguei o notebook, não queria que Théo visse o arquivo em que estava trabalhando até ter acabado.  Era um presente para ele, algo que esperava que pudesse expressar o que aqueles dias significaram.
— Você não precisa parar o que está fazendo por minha causa.
— Terminei por hoje. — Pus o notebook na mesa de centro e sentei em suas pernas. — Tenho algo mais interessante em mente. — Tracejei a tatuagem em seu pescoço. — Penélope vem com o namorado pra cá amanhã, ela quer que a gente saía pra dançar. Topa?
— Claro, Bruxinha. — Ele pressionou as mãos nos meus quadris, resvalando para lombar. — Você gosta de dançar? — Demorei um segundo para me dar conta que havia passado mais de vinte e quatro horas desde que dançamos no meu quarto. Théo percebeu minha confusão, seu sorriso desvaneceu. — Nós já dançamos, né?
— Podemos fazê-lo agora. — Levantei e estendi a mão para ele. — E quantas vezes mais quisermos.
Théo ergueu-se, levou minha mão ao seu ombro e repousou ambas as suas na minha cintura.
— Eu me odeio por não ser capaz de sentir falta disso. — Ele deu um passo à frente e, olhando-me nos olhos, começou a cantarolar, movendo-nos com a melodia meio desafinada. Recostei-me ao seu rosto e fechei os olhos, abraçando-o pelo pescoço. Não lhe diria, mas a verdade é que também me perguntava o porquê não o conheci antes. — “And love me when I'm gone. Everything i am. And everything in me. Wants to be the one you wanted me to be”.[1]
— Você é tudo o que espero de um cara.
— Existe uma crença na minha família sobre encontrar alguém que, em um único segundo, abalará nosso mundo de modo irreversível — suas mãos avançaram pelas minhas costas, envolvendo-me em um abraço — você é esse alguém para mim. Você é a minha garota, como diria meu avô.
Cruzei meus braços em seu pescoço e os seus voltearam minha cintura, pressionando nossos corpos. Seu rosto declinou sobre o meu, a barba raspou minha pele e a boca moldou-se a minha. O beijo que se seguiu foi avassalador, seu aperto firmou-se minha bunda e a ereção robusta pressionou meu ventre. O empurrei para o sofá e o montei, ficando apoiada nos joelhos. Théo deitou a cabeça no encosto, infiltrou as mãos sob o vestido, apalpando-me forte.
Mordi seu lábio inferior: — Quero você, seus piercings e seu gozo.
— Você quer...
— Sentir sua porra inundando minha boceta.
Ele agarrou meu cabelo numa mão: — Então vem. — Puxou meu rosto e mordeu o lóbulo da minha orelha enquanto a mão direita se ocupava de despir sua calça e boxer. O som do zíper sendo aberto me roubou um suspiro. Sorriu, prendeu meu lábio entre os dentes e dedilhou-me por cima da calcinha. Ágeis, os dedos repuxaram o tecido de lado. — Sou todo seu, Bruxinha. — Abriu os grandes lábios com a glande, sem penetrar-me, deslizando pra cima e pra baixo. — Quero seu tesão escorrendo no meu pau. — Roçou nossas bocas. Não demoraria para atender seu desejo. Abaixei o quadril, engolindo apenas a cabeça e voltei a beijá-lo. Além da protuberância do piercing, podia sentir a textura lisa e gélida... Puta que pariu, aquilo era alucinante. Uma das mãos voou para minha bunda. — Senta.
A ordem vinda do timbre grave e sussurrado fez meu corpo arder em chamas. Desci de uma vez, sentindo o atrito dos piercings aumentar minha sensibilidade, logo os gemidos ficaram impossíveis de serem retidos. Apartei nossas bocas, jogando a cabeça para trás. Ele abriu uma mão em minha nuca, os dedos prenderam-se aos fios e os lábios atacaram meu pescoço, distribuindo chupões.
Segurei-me nele, escavando seus ombros. Os beijos não cessavam e tinha a impressão que ele estava marcando meu corpo com fogo. Eu arfava, subia e descia, sentindo sua ereção latejar, pressionar, estugar, disseminando impulsos que se expandiam por minha coluna e se espalhavam célula a célula, fazendo-me exceder o prazer. Meu corpo transbordava sobre o dele, derramando-se em gozo e gemidos.
Ele se desfez da própria camisa, em seguida ergueu meu vestido, passando-o por minha cabeça e apanhou meus seios, tomando-os entre os lábios, primeiro o direito, depois o esquerdo. Apertando-os, sugando-os, lambendo-os. Eu deslizava no seu colo, sem esforço, meus orgasmos tinham deixando-nos escorregadios.
— Por que você tinha que ser tão gostoso? — Ronronei, deslizando minhas unhas nos músculos intercostais.
— Isso é uma reclamação? — A risada baixa sucedeu uma mordida no meu mamilo.
— Não! — Sua língua avançou por meu pescoço. — Não mesmo.
A boca se impôs sobre a minha num beijo voraz, o corpo sendo projetado para frente, unindo nossos tórax. As mãos deslocaram-se para meu quadril, auxiliando-me a intensificar o vaivém. Ele empurrou a pélvis de encontro a minha, a penetração indo tão fundo quanto possível. Eu o abracei, meus mamilos deslizaram sobre sua pele, num ir e vir implacável.
Théo palmeou minha lombar e trilhou as costelas, numa escalada que perfez toda minha coluna para enfim interromper-se. Os dedos se abriram em minha nuca, ele arqueou meu corpo, deitando-me para trás. Demoveu o beijo e abocanhou meu seio. As investidas continuaram furiosas, os piercings potencializando os estímulos. Refém do prazer, amoleci nos seus braços, devastada pelo meu gozo e sendo inundada pelo dele. Puxou-me para si, recostou-se no estofado e me abraçou.
 
 
[1] E me ame quando eu for. Tudo o que eu sou. E tudo que há em mim. Quer ser aquele que você queria que eu fosse (3 Doors Down, When I'm Gone).
 
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12. Théo

 

 
Eu tinha duas certezas: primeiro, não seria capaz de recordar de Kiara; segundo, não queria esquecê-la. Minhas limitações existiam e não havia nada que pudesse fazer, portanto, cabia-me encontrar recursos que me ajudassem a mantê-la viva em meus pensamentos.
Todas as noites, quando ela adormecia, eu levantava, pegava meu bloco de notas e sentava-me aos pés da cama, observando-a enquanto registrava tudo quanto possível sobre ela. Anotações breves sobre o que conversávamos, assim quando ela partisse, eu leria cada página escrita e a conheceria de novo todas as manhãs, até que pudesse reencontrá-la. Não era muito, mas era tudo o que me restaria daqueles dias, e teria que me bastar, porque eu não podia e não queria que os sentimentos que ela despertou desaparecessem.
Quando terminava de escrever, ainda me demorava acordado. Deitado ao lado dela, lhe acariciava os cabelos, contemplando-a, desejando que de algum modo sua imagem ficasse gravada em mim, como uma das tatuagens que cobriam minha pele.
Nosso tempo estava acabando e estar ciente do que ele significava me deixava aflito. Se eu não conseguisse burlar a amnésia? Se ela percebesse que estar comigo não valia o esforço? O quão justo era pedir que ela se prendesse a mim? Alguém que não podia estar por inteiro num relacionamento porque perdeu parte de si e talvez nunca a recuperasse.
Por outro lado, não desperdiçaria um segundo com ela pensando no que poderia ou não ser. Um dia e meio, era todo tempo que tínhamos. Tive uma noite insone, cedo pulei da cama e fui para a cozinha. Preparei o café da manhã e o levei para o quarto. Kiara continuava a dormir, o lençol sobre suas pernas era a única peça em seu corpo. Pus a bandeja na escrivaninha e me sentei na cama, beijando-lhe os lábios.
— Bom dia, Bruxinha.
— Começando assim... — Ela escorregou uma mão por meu cabelo. — Preciso escovar os dentes.
— Fiz o café da manhã.
— Preciso mesmo escovar os dentes, porque quero muito te beijar. — Empurrou meu peito e sentou-se. Seu olhar foi para a escrivaninha e em seguida fixou-se em mim. — Você é grande demais para caber na minha mala, pare de me tentar.
— Apenas quis garantir um café da manhã caprichado para repor as energias gastas e aquelas que ainda vamos queimar. — Ergueu uma sobrancelha. — Não estou falando de sacanagem, Kiara. — Ela levantou-se e meus olhos se detiveram nos bicos dos seus seios. — Se bem que... — A segurei pela cintura e puxei para o meio das minhas pernas.
— Não. — Gargalhou. — Estou com bafo de leão.
Chupei seu mamilo, apalpando o outro seio: — Vai de uma vez antes que espalhe pasta de amendoim nos seus peitos e me sirva deles.
— Segure essa ideia, volto logo.
A manhã de domingo foi de provocações, comilança e amassos. Enrolamos na cama por longas horas, o que acabou em sexo no chuveiro. Saímos por volta do meio-dia, depois que recebi uma mensagem do meu irmão, falando sobre uma reserva para o almoço, e uma nota de rodapé: “A leve num encontro. Nos vemos na festa de despedida”.
— Como você soube que esse é meu restaurante favorito? — perguntou logo que o maître nos deixou a sós.
— Thomás. — Estendi o braço até o centro da mesa, com a palma virada para cima, um convite que ela atendeu. Sua mão recaiu sobre a minha, permitindo-me acariciá-la. — Ele fez a reserva. Te decepcionei por não ter...
— Não. — A firmeza em sua voz não deixava margem para incerteza. — Mas gosto que o Tom tenha pensado nisso. — Sorriu, meneando a cabeça.
— Eu também.
Ela era só o que eu via, seus risos, gestos, o modo como levava a taça aos lábios e degustava o vinho sem desviar os olhos dos meus, a espontaneidade com que agia e falava sem se incomodar que estivessem nos observando. Kiara me fazia sentir como se estar comigo fosse o que havia de mais importante.
Tivemos um encontro completo. Quando deixamos o restaurante, a levei para um passeio no parque, dividimos um sorvete, tiramos fotos zoadas um do outro e juntos, gargalhamos, nos beijamos, falamos sobre nossos planos para o ano que viria.
— Acho que você é culpado por um novo fetiche. — Ela franziu o lábio. — Não consigo parar de pensar que quando o reencontrar será oficialmente um bombeiro e... isso é quente, muito quente.
—  Que você não precise de um bombeiro na Inglaterra — provoquei, alisando sua coxa. Estava recostado no tronco de uma árvore e ela no meu colo.
— Théo, não podemos manter contato?
— Não sei por quanto tempo conseguirei segurar esse sentimento e não quero magoá-la, o que acontecerá se um dia responder sua mensagem ou ligação como se falasse com uma desconhecida. Não quero arriscar, Kiara, não quando você está envolvida.
— Estou feliz por ter concordado em ficar esses quatro dias com você. — Afagou minha barba. — Estou em dívida com o Tom, se não fosse por vocês serem irmãos nem teria entrado no seu carro.
— Nesse caso, estamos, Bruxinha. — Segurei seu rosto, acarinhando-a. — Obrigada por não ter me achando um louco e ter fugido correndo.
— Não disse que não te achei louco. — Sorriu.
— Acontece que você é tão louca quanto eu.
— Completamente. — Resvalou a mão direita para minha nuca, eu movi a minha para sua coluna e nos beijamos.
Fomos interrompidos pela vibração do seu celular, era Penélope lembrando-nos que logo estaria passando no apartamento para irmos à festa. Apressamo-nos e conseguimos estar arrumados quando ela e o namorado chegaram com pizzas. Nós jantamos e fomos para o pub onde tinha sido marcado o encontro de despedida da Kiara. Tive certeza que ela odiava ser o centro das atenções quando sua amiga usou estas palavras para se referir a balada.
— Não precisa arrancar minha cabeça, seremos nós, Thomás e Jayden — explicou-se Penélope.
O ambiente do pub era introspectivo, combinava com o estilo da Bruxinha. Meu irmão mandou uma mensagem avisando que se atrasaria. Nós pegamos uma mesa, eles tomaram alguns drinks e fomos para a pista de dança.
Poderia sentar e observá-la dançar por horas, os movimentos de Kiara exprimiam liberdade e paixão, um belo raio-x da sua personalidade. Entretanto, eu era o filho da puta sortudo que ela escolheu para acompanhá-la e se havia algo mais excitante do que a assistir, era ser seu par.
— Isso está quente. — A voz de Penélope sobrepôs-se a música.
A bruxinha sorriu nos meus lábios, rompendo o beijo, e virou-se para a amiga, que segurava o celular, filmando-nos: — Você é insuportável, P.
— Depois de matar o pessoal de inveja, digam oi.
— Tchau. — Kiara ergueu o dedo médio.
— Selfie! — Penélope agarrou a amiga pelo pescoço e tirou uma foto nossa. — Podem voltar ao que estavam fazendo — ela fez um estalo com a língua —, aliás, tem um lavabo ali atrás e o balcão dá para o gasto.
Gargalhei alto. Kiara mordeu o lábio prendendo o riso e espalmou a mão em meu tórax, derrapando os lábios sobre os meus. Circundei sua cintura, rendendo-a entre meus braços e beijando-a profundamente. Mesmo quando o beijo se desfez, continuamos abraçados, dançando num ritmo oposto a música, trocando beijos calmos e conversas ao pé do ouvido.
De repente tudo ficou confuso. Senti uma pancada na cabeça, ouvi gritos e Kiara segurava meu rosto, perguntando se estava bem.
 
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13. Kiara
 
 
— Sabia que essa história de amigo gay era fachada! — Taylor puxou Théo e socou-o no rosto, ele cambaleou e quase caímos. — Você sempre comeu essa vadia.
— Para, Taylor! — Minha amiga se enfiou na sua frente.
O covarde tinha acertado Théo com uma garrafa na cabeça, tinha sangue escorrendo no seu rosto, eu era hematófoba, porém naquele momento o medo do que poderia acontecer com ele era maior.
— Vai embora, Taylor. Deixa a Kiara em paz. — Darci o empurrava.
—Théo, me responde. Você está bem?
— Minha cabeça. — Seus olhos vagavam sem prender-se a nada, embora eu estivesse rente ao seu rosto. — Eu não sei.
Minha amiga se aproximou, ao ver o sangue se afastou e voltou com guardanapos, limpando minhas mãos e o rosto do Théo.
— Estou bem, estou bem — murmurei para ela. — Temos que levá-lo ao hospital.
— É necessário? Foi profundo o corte?
— Ele tem uma bala na cabeça, P.
Penélope arregalou os olhos e buscou pelo namorado, que continuava tentando afastar o Taylor.
— Vadia! Na hora de abrir as pernas você não tinha nada contra traição, né? Quer saber a verdade? Comi sua antiga colega de quarto todos os dias, ela me deu a bunda enquanto você dormia na cama ao lado.
— Some daqui, cara — Darci pediu.
— Não antes de me acertar com esse viado.
— Eu deveria me ofender? — Em seguida a voz do Thomás ouvi um baque. Tirei os olhos do Théo apenas por um segundo, para verificar o que estava acontecendo. Tom tinha socado o Taylor, derrubando-o. — Da próxima vez que mexer com a Kiara ou com meu irmão, vou te mandar para o hospital.
— Como vocês estão? — Jayden amparou Théo, apoiando-o nos seus ombros. — Vamos sair daqui.
— Taylor o acertou na cabeça e... — Uma lágrima rolou.
— Vai ficar tudo bem. P, chame o segurança e avise ao Thomás que estamos esperando no carro.
— Não consigo ver, tem uns flashes.
— Nós te ajudamos. — Abracei o Théo pela cintura. — Sua cabeça?
— Dói muito.
Lembrei que ele tinha colocado os documentos e laudos no porta-luvas, por isso pedi ao Jayden que o levássemos para a picape. Rebaixei o banco carona e o fizemos deitar, o que demorou poucos segundos, porque ele reclamou de náusea e saiu do carro, sentando-se no chão.
— Deixe-me limpar o sangue. — Agachei-me.
— Vou vomitar e não quero que você veja.
— Só me importo que você fique bem. — Afaguei seu rosto. — Jayden, me dê a lixeira.
Théo estava vomitando pela segunda vez quando Thomás, Darci e Penélope nos encontraram. Jayden buscou o carro e o deitamos no banco traseiro, com a cabeça em meu colo. Tom estava no carona, com todos os documentos e laudos do irmão nas mãos, e minha amiga levou a picape para nosso apartamento.
Antes de chegarmos ao nosso destino, Théo desmaiou. Thomás explicou o que houve e o histórico do irmão, imediatamente ele foi atendido e levado para realizar exames. Nós esperamos por horas que pareceram dias e quando surgiu alguém para falar conosco não foi para tranquilizarmos.
— Ele me disse que o projétil não foi removido porque era muito perigoso.
— É verdade. — O médico me olhou com pesar. — No quadro atual, não realizar a cirurgia é mais arriscado. O golpe que o atingiu provocou uma concussão que, por sua vez, gerou uma compreensão na área que abrange o projétil.
— Quanto tempo durará o procedimento? — Thomás respirou fundo.
— Algumas horas.
— Não há... — Minha voz falhou. — Não tem outra opção?
— Se não fizermos a cirurgia, ele não resistirá.
— Desculpe, eu preciso... — Sacudi as mãos. — Não consigo. — Olhei para Thomás me desculpando.
Não podia ficar mais um segundo ouvindo o médico dizer que a vida do Théo estava em risco. Sentei numa escada defronte para o estacionamento onde paramos, dando vazão ao choro que estava engasgado. Alguns minutos e alguém se acomodou ao meu lado, envolvendo meus ombros. Não foi preciso olhá-lo para saber que era o Thomás.
— Eu não fazia ideia que o Taylor fosse... Se eu soubesse que existia a remota possibilidade de algo assim acontecer, não teria ficado com o Théo. Quando ele sair da cirurgia, quando souber que nada de ruim poderá acontecer, irei embora e ele nunca mais me verá.
— Que conversa é essa, Kiara?
— Ele não se lembrará de mim, Tom.
— O problema é que ele não quer te esquecer.
— Não é como se ele pudesse evitar.
— Você vai permitir que o Taylor interfira deste jeito na sua vida?
— Taylor quebrou uma garrafa na cabeça do Théo, Thomás! Seu irmão está numa mesa cirúrgica por minha culpa, porque se envolveu comigo, porque meu ex é um maníaco descontrolado e possessivo. Se ele morrer...
— Ele não vai... — Thomás engoliu alto. — Théo é um puto teimoso do caralho, ele ganhará essa luta.
— Queria que o Taylor tivesse me machucado e não ao Théo.
— E aí eu teria que me dividir em dois, para estar aqui no hospital com você e na delegacia com meu irmão, porque ele mataria o Taylor. — Beijou minha têmpora. — Ele ficará bem.
— Quando eles irão...
— Théo não bebe e não fuma, também não faz uso de drogas ou antiflamatórios e anticoagulantes, ele só precisa completar doze horas de jejum antes da cirurgia. O médico disse que se quisermos vê-lo, temos pouco mais de uma hora antes que iniciem os exames complementares e procedimentos preparatórios.
— Não sei se...
— Você não precisa entrar se não quiser.
— O quão ruim é se eu começar a chorar lá dentro?
— Duvido que o Théo te deixe chorar por mais que dois segundos. — Ele removeu o braço das minhas costas e segurou minha mão. — Você enfrentou sua fobia, K.
— Eu estava em pânico pelo Théo, o sangue era o menor dos meus problemas. Numa das nossas conversas ele me contou das precauções que tomava para evitar complicações, de todos os cuidados que tinha para se manter estável. — Funguei. — Aí eu apareci e fiz uma bagunça na vida dele.
— Kiara, você não pode se responsabilizar pelas ações do Taylor.
— Se não fosse por mim, Taylor não iria atrás do Théo.
— Não vou discutir com você. Preciso entrar, quero ver o Théo antes de ligar para nossos pais. Se decidir vê-lo, entre e avise a enfermeira que ela me chama.
— Está bem.

 

 
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14. Théo
 
— Você tinha que contar para nossos pais?
— A mãe pegou pesado com você, é?
— Ela queria que eu voltasse para a casa até o próximo ano, falei que sem chance. Não vou interromper o curso faltando dois meses para concluir e ela decidiu que é uma ótima ideia morar comigo pelos próximos meses.
— Só não estou rindo porque você mora perto de mais e esse arranjo sobrará para mim. Como você está?
— Estou horrível com a cabeça raspada. — Ele riu da minha piada, mas o vinco na sua testa continuou lá. — E com uma tremenda enxaqueca desde que acordei.
— Mais alguma coisa?
— Aparentemente não, se o pau estiver subindo, está tudo certo.
— Théo.
— Estou bem. Kiara?
— Você lembra?
— Por que não lembraria? Estava com ela ontem de madrugada.
— Théo, você está aqui há dois dias. Você estava apresentando oscilações de consciência.
— Lembro de tudo, Tom. —  Sorri abertamente. — Lembro da festa de Halloween, de beijá-la. O acidente no ano passado. Tudo.
— Precisamos contar aos médicos.
— Depois, por ora vamos fingir que não estou hospitalizado. Diga que além de ter perdido as últimas horas antes de Kiara embarcar para Inglaterra, eu não vomitei em seu colo, nem nada assim.
— Ela segurou a lixeira do carro para que você vomitasse e a verdade é que ela ficou ao seu lado de quando deixou o centro cirúrgico até despertar. Devo acrescentar que você estava chapado nas primeiras horas do pós-cirúrgico e a pediu em casamento?
— Nem fodendo.
— Se não quer acreditar. — Ele deu de ombros. — Você disse que tinha morrido quase duas vezes e não tinha tempo a perder.
— O que ela disse?
— Você terá que perguntar para ela.
— A Bruxinha está aqui?
— Ninguém seria capaz de fazê-la entrar naquele avião antes de vê-lo acordado e consciente, não importa se você não a reconheceria.
— Quero vê-la.
— Seria estranho a visita de uma desconhecida, então ela bolou um plano. — Meu irmão se interrompeu e os cantos dos lábios desenharam uma curva larga. — Não vou estragar a surpresa.
— Thomás, quase morri, não é hora para suspense.
— Ah, que fique entendido que você está proibido de quase morrer de novo, a partir de hoje está na minha vez e pretendo deixá-la desabilitada pelas próximas décadas.
— Você está mudando de assunto.
— Vai dormir, Théo. Você precisa descansar.
— Thomás, você está me sacaneando?
— Não é você quem gosta de viver com emoções a flor da pele? Estou ajudando no processo. Surpresas contam como propulsoras de adrenalina.
— Você é um babaca.
— Sou seu irmão gêmeo, cara. O que você esperava? — Riu e beijou minha testa. — Sem zoeira, dorme um pouco. Logo mais a K está na área.
Dos quatro irmãos, Tom sempre foi o melhor em guardar segredos, sabia que não adiantaria insistir, ele não revelaria o que Kiara planejava. Segui seu conselho, não que pudesse fazer qualquer coisa diferente de dormir, principalmente com minha cabeça latejando de dor.
Os medicamentos ajudaram para que apagasse, devo ter fechado os olhos e adormecido. Estava sem noção de tempo, podia ter dormido por minutos ou horas. Quando acordei meu pai estava comigo, sentado numa poltrona na lateral do leito.
— É impressionante como até quando você não faz nada de errado as confusões te perseguem.
— É um dom. — Estendi a mão e ele a envolveu. — Você a conheceu?
— Ela estava dormindo grudada à sua cabeceira quando chegamos.
— Farei uma confissão e se você contar a mãe, negarei até a morte.
— Você está feliz por ter sido agredido porque se não tivesse acontecido o projétil ainda estaria alojado na sua cabeça, a amnésia persistiria e a teria esquecido, e sua mãe te mata se ouvir você dizer isto.
— Eu sei. — Ri baixo. — A Bruxinha é a minha sereia, pai.
Contei tudo sobre Kiara, como a conheci e a proposta maluca que fiz, como me senti em relação a ela desde o primeiro minuto e a proporção assustadora que esses sentimentos tomaram quanto mais ela se mostrava.
Eu estava absorto em minhas lembranças, feliz por conseguir recordar os detalhes mínimos e não me incomodei em prestar atenção a enfermeira que entrou, entretanto, meu pai encerrou nossa conversa e se despediu.
— Você vai me espetar de novo?
— Não, trouxe água.
— Tenho horário para tomar água? Não, né? — Virei-me para a enfermeira e prendi o riso ao ver que era Kiara. — Acho que você é culpada por um novo fetiche. — Usei as palavras dela para ver sua reação.
— Um pouco inapropriado, não acha?
— Na verdade, não. — Rodeei seu pulso. — Estava preocupado que tivesse ficado com alguma sequela sexual. Contudo — meu olhar recaiu no seu busto, — você me deixou duro.
— Isso é... — Ela deu um passo para trás e abandonou o copo na mesinha ao lado.
— Você é meu fetiche, Bruxinha. — Umedeci o lábio. — Não que você não tenha ficado linda vestida de enfermeira, no entanto, poderia estar fantasiada de zumbi e eu continuaria com tesão em você.
— Como... — Ela me olhou confusa e deixou a pergunta no ar.
— Importa? — Levei a mão ao seu rosto, afagando-o.
— Você está aqui por minha culpa, Théo.
— Não foi você quem me acertou com uma garrafa, Kiara.
— Foi meu ex namorado.
— O que me diz que você teve uma fase de gosto duvidoso para homens, por outro lado, sou seu último interesse afetivo. — Franziu os lábios, disfarçando um sorriso. — Está claro que a fase ruim acabou.
— É sério, Théo. — Ela acariciou minha cabeça. — Sinto muito.
— Estou bem, Bruxinha. Melhor do que antes para falar a verdade, porque agora tenho minhas memórias em pleno funcionamento, assim espero. Os médicos ainda não avaliaram e pode ser algo temporário, portanto, não quero criar expectativas... Eu apenas estou feliz por hoje, por você não ter sido apagada da minha vida.
— Estou feliz por você está vivo — seus olhos lacrimejaram — e sem sequelas. — Sacudiu os ombros. — Não estraguei sua vida.
— Sobre isso — estreitei os olhos —, depende do que você respondeu quando te pedi em casamento.
— Não acredito que Thomás te contou!
— Você rejeitou o pedido de um homem prostrado no leito de um hospital?
— Não exatamente. — Ela abaixou os olhos.
— Não? — Peguei sua mão e pousei sobre meu coração. — O que exatamente você respondeu?
— Que se nos reencontrássemos em um ano e você me olhasse como quando nos conhecemos, ainda que não fizesse ideia de quem eu era, diria sim.
— Eu pensaria que você é louca.
— Isso não me impediu.
— Eu te beijaria se não estivesse amarrado a uma centena de cabos.
Ela se inclinou, debruçando-se sobre o leito e uniu nossos lábios.
 
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Epílogo por Kiara
 
Havia contando os dias para a noite de Halloween e estar ali, de volta ao local onde o conheci, fez uma bagunça nas minhas emoções, não sabia se estava nervosa, ansiosa ou excitada. Provavelmente todas as opções.
Meus amigos me buscaram no aeroporto na noite anterior e tivemos uma festa de boas vindas no apartamento que Penélope e Darci dividiam; precisava de uma nova colega de quarto. Théo estava na cidade, conquanto, não esperei que ele aparecesse, nós tínhamos um acordo e, apesar de ter desejado inúmeras vezes ignorá-lo, erámos fiéis a ele.
Falamo-nos todos os dias, fazíamos programas a dois — embora tivesse um oceano entre nós —, desde filmes, jantares, até sexo. A distância nunca nos atrapalhou, porque ele me fazia sentir que estaria comigo sempre que precisasse, e ele estava. Não houve um dia ruim que não estivesse ao meu lado, assim como quando as coisas não saíam bem e ele precisava que o lembrasse que não poderia salvar a todos, eu estava presente.
Fiz um giro panorâmico ao chegar na clareira e não o encontrei. Uma pontada de medo, de termos projetado ideais inalcançáveis um no outro, me cutucou. Acenei para meus amigos, avisando-os que os encontraria depois. Suspeitava que Thomás soubesse onde o irmão estava, sabendo que ele era um túmulo sobre guardar segredos, não me dei ao trabalho de perguntar ou ele era capaz de me deixar mais nervosa.
Descartei a ideia de ingerir álcool, no estado de ebulição que meu corpo estava, terminaria vomitando quando o visse. Dançar parecia uma distração efetiva e isenta de riscos. Circulei entre o pessoal dançando e parei ao encontrar um espaço onde podia me mover com liberdade, sem esbarrar em alguém.
Fechei os olhos e senti meu coração vibrando com a música. Meus braços e quadris se moviam acompanhando a melodia. Uma mudança abrupta na música me fez sorri. Descerrei as pálpebras. Théo estava na minha frente, ele pôs um braço ao redor da minha cintura e puxou-me. Inclinou-se, aproximando os lábios do meu ouvido, e sussurrou a estrofe da música antes de me beijar.
                                             
 
“I think I'm 'bout to explode
I can taste the tension like a cloud of smoke in the air[1]
 
Foi um beijo cheio de saudade. Lágrimas traiçoeiras percorreram as maçãs do meu rosto e molharam nossos lábios. Ele enlaçou-me e levantou-me, girando-nos enquanto nossas línguas encontravam-se após um ano de exílio.
— Eu te amo, Bruxinha — disse, dando beijos breves ao me colocar no chão. Ele alisou meu cabelo. — Eu te amo.
— Espera. — Tirei uma HQ do bolso da minha jaqueta esfarrapada que fazia era parte da fantasia. — É pra você. Eu ia te dar no ano passado, aí você foi parar no hospital, sua amnésia se foi e decidi que não estava finalizada.
— O Cavalheiro Tatuado e a Bruxinha: o sequestro do coração. — Leu o título em voz alta.
— Última página. — Ele abriu onde indiquei e sorriu. Havia só um quadrinho naquela página, era uma ilustração nossa, eu usava uma fantasia de zumbi, como a que vestia, e ele de bombeiro. A Bruxinha zumbi oferecia seu coração para o Cavalheiro Tatuado e acima de suas cabeças tinha um único balão: — Sim.
— Você percebe que acabou de me pedir em casamento? — Fechou a HQ e o guardou no bolso do seu casaco. Ele estava fantasiado do Monstro de Frankenstein. — Esse era meu plano. — Pegou minha mão direita e pôs um anel em meu dedo. — Bruxinha ou zumbi, é com você que quero acordar todos os dias da minha vida. — Segurou minha nuca. — Eu sabia que você seria uma zumbi sexy. — Mordeu meu lábio e beijou-me.
 
[1] Eu acho que vou explodir/ Posso sentir a tensão como uma nuvem de fumaça no ar (Jessie J, Domino).
 

 

 

Esta é uma obra de ficção.

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